domingo, 21 de fevereiro de 2016

Nosso adeus a Hélder Câmara

Por Fernando Melo

Hélder e Pinto Paiva no Hotel Tambau,, em 1976
   Falar do MI cearense Hélder Câmara é falar de capítulo importante da história do xadrez brasileiro. A notícia de sua morte, ocorrida ontem (sábado) aos 79 anos de idade, nos chegou através de e-mail do MI Antonio Resende a Fernando Sá de Melo, que de imediato teve a feliz iniciativa de denominar Torneio de Blitz Hélder Câmara, a um evento que estava programado e que foi realizado com sucesso na tarde de ontem. O detalhe importante desta homenagem póstuma a Hélder, foi que na primeira rodada, num total de nove, em todas as  partidas foi jogada a Defesa Brasileira, criada exatamente por Hélder.
   Neste artigo que expressa a saudade, pois o conheci pessoalmente 40 anos atrás, quando aqui esteve no período de 4 a 16 de julho de 1976,  no 42º Campeonato Brasileiro, lembro o momento em que ele veio falar comigo, em minha residência, acompanhado do baiano Pinto Paiva, dois ex-campeões brasileiro e duas figuras que tinha a minha forte admiração. Veio a pedido do meu saudoso cunhado Abdias Sá, então presidente da Federação Paraibana de Xadrez e diretor geral deste importante evento, em que a Paraíba, pela primeira vez sediava, no Hotel Tambaú. Eu era o secretário geral e o peso da responsabilidade terminou causando ligeiro atrito com Abdias. Fiquei aborrecido e vim para casa dizendo que abandonava tudo no meio do campeonato. Abdias, que me conhecia e sabia que eu não ia voltar, tomou essa iniciativa que reputo sábia, pedindo a esses dois mitos do xadrez brasileiro que me convencessem a voltar. Deu certo, eu voltei!
     Quem pesquisar a vida do enxadrista Hélder Câmara, certamente vai se surpreender. Uma das coisas que me orgulhava era saber que ele jogou com Bobby Fischer, em 1970, nas Olimpíadas de Siegen. Poucos brasileiros tiveram essa oportunidade.de enfrentar Fischer. Mas a partida que Hélder tinha muito orgulho foi jogada em 1990, contra Vladimir Kramnik, em Sao Paulo (link).
        Hélder foi campeão brasileiro em 1963 (Recife) e em 1968 (São Bernardo do Campo) e várias vezes vice-campeão. Era um excelente jogador de blitz. Quando esteve aqui, vi dando 5 por 1 e ganhando todas! Homem culto, como o seu irmão Ronald Câmara, que também foi campeão brasileiro e dirigente da CBX. Os dois escreveram em jornais e importantes livros, que enriquecem a literatura enxadrística nacional. Em 1972, ao lado do irmão Ronald, Hélder recebeu das mãos do Governador de São Paulo, Laudo Natel, o diploma de Mestre Internacional da FIDE.
          Helder Câmara nasceu em Fortaleza no dia 7 de fevereiro de 1937, data em que o tio, Dom Hélder Câmara, comemorava 28 anos de idade. Da mesma forma que o irmão Ronald, ele recebeu a gênese enxadrística do pai Gilberto Câmara. No final da década de 50, Hélder se transferiu do Ceará para o Rio de Janeiro, a então Capital Federal. No Rio foi campeão carioca em 1958, 1960 e 1961 e escreveu coluna de xadrez no Jornal dos Sports. Em 1967 foi morar em São Paulo, onde passou a dirigir a tradicional seção de xadrez do jornal O Estado de São Paulo, em substituição a Ludwig Engels (1905-1967), mestre internacional alemão, radicado em São Paulo. 
              Tem uma passagem curiosa e com a qual vou encerrar esse artigo, que já se alonga. Quando Hélder conquistou o Brasileiro 1963, seus amigos colocaram faixas alusivas à conquista em postes em alguns pontos do centro do Rio de Janeiro. Segundo os jornais da época, por causa dessas faixas, o então bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Dom Hélder Câmara, recebeu inúmeros cumprimentos antes de poder explicar que o campeão brasileiro não era ele, mas sim seu sobrinho. Nossa eterna saudade ao Mestre Hélder!

2 comentários:

  1. Belissíma homenagem. Parabéns Fernando Antonio Melo, memória viva do xadrez brasileiro.

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