sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Voo do Capivara – A história do Gambito Urquiza

Você tem razão, meu incrédulo leitor, esse gambito não existe. A história, sim; mas o gambito, não. Aliás, eu sou uma lástima em teoria de abertura. Reconheço a minha incapacidade em desenvolver tais estudos. Porém só deixarei para falar do tal gambito mais adiante. Então mantenha-se sereno, como a simpática capivara da foto, enquanto tento encher linguiça com outros assuntos.


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Teve um período em que priorizei o xadrez por correspondência. Foi numa época em que a internet ainda não era popular, e que os programas de computadores eram adversários fracos. Portanto, já faz um tempinho...

Foi quando vim trabalhar no interior. Início de carreira, dinheiro curto, distância para os grandes centros, torneios com rodadas no meio da semana. Tudo isso dificultava a minha participação em competições presenciais. Depois vieram a esposa e os filhos... então a coisa complicou de vez.

Dessa forma, fui me envolvendo cada vez mais com o xadrez postal.

As partidas duravam meses. Era uma ida e vinda interminável de aerogramas. Eu comprava blocos dessas cartas pré-franqueadas. E ainda tínhamos de guardar as que recebíamos até o final do respectivo torneio. As pastas ficavam abarrotadas.

Havia pouca interação entre os jogadores, salvo uma breve apresentação no primeiro contato. O foco era o xadrez, principalmente para aqueles que jogavam muitos torneios, como era o meu caso. Alguns de nós até providenciavam a confecção de carimbos, seja para a transmissão dos lances, ou até para que não precisássemos escrever nosso próprio endereço. Tudo para racionalizar a atividade.

Mas alguns também gostavam de socializar. Eram raros, mas existiam. Lembro-me de um jogador de Goiânia (GO). O cidadão escrevia uma lauda equivalente a uma folha de papel ofício! Até tentei retribuir. Mas responder aquela carta era mais difícil do que analisar os vários lances que me chegavam todos os dias. Então fui diminuindo o tamanho da minha missiva, até que ele se chateou e disse que, em face da pouca atenção que eu estava dando aos seus escritos, a partir daquele momento se limitaria a jogar xadrez. Ufa! Foi um alívio.

Mas nada substituía as emoções proporcionadas pelo xadrez presencial. Então eu buscava suprir essa carência com a participação em mais e mais torneios postais. Eram muitos lances que tinha de responder diariamente. Chegava do trabalho, brincava um pouco com os meninos, dava outro tanto de atenção à esposa, e logo ia analisar os jogos, até altas horas.

Nessa balada, consegui me classificar para as semifinais dos dois mais importantes torneios do Clube de Xadrez Epistolar Brasileiro (CXEB): o Campeonato Brasileiro e a Taça Brasil. E estava indo até bem. As partidas já estavam no meio-jogo, e eu vislumbrava a possibilidade de me classificar para a final de pelo menos um deles.

Mas eu não me limitava a jogar apenas esses. Ainda tinham uns torneios por categoria, outros temáticos, e até um internacional. Então, um dia, travei. Não conseguia responder mais nada. Quem já jogou “pinball”, sabe que não se deve sacudir a máquina com muita violência, pois ela pode dar “tilt” e travar. E foi assim: deu “tilt” no meu juízo.

Naquele momento, reconheci que não já era mais possível continuar com o xadrez. Peguei meus livros, materiais, planilhas e tudo o mais relacionado ao jogo e coloquei numa caixa que, tal qual uma cápsula do tempo, só veio a ser aberta vinte e sete anos depois.

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A história do gambito começou quando, em novembro de 1990, teve início um torneio da Categoria Especial (TC-E) do CXEB. Dentre os meus adversários, constava o nome do Mestre Fernando Melo. Aliás, a partida que joguei com ele, naquela ocasião, é uma das minhas preferidas. Precisei de muita paciência para romper a sólida posição defensiva que ele montou.

Melo era um dos correspondentes que  gostavam de interagir, mas de uma forma moderada. Certo dia, ele me informou que estava editando um boletim que cantava loas às virtudes da Defesa Francesa, da qual era aficionado. Perguntou se eu gostaria de recebê-lo. Aceitei de bom grado, pois aquela defesa também tinha sido a minha preferida por muito tempo.

Numa das edições, ele convidou os assinantes que estivessem jogando alguma linha específica da Francesa, com bons resultados, para compartilhá-la com os demais leitores.

Mexendo nos meus velhos Informadores, eu havia encontrado uma interessante linha da Variante Tarrasch. Já a tinha usado três vezes, com cem por cento de aproveitamento. Fiz algumas análises e mandei para Fernando. Talvez ele aproveitasse alguma das partidas...

Porém ele fez mais... Publicou uma matéria de página inteira com todas as partidas, duas deles comentadas, com o título de “O Gambito Urquiza”! (*)

Ora, o tal gambito não é meu coisíssima nenhuma. Mas tomei parte de uma história que carrego com muito carinho. E que bom que o xadrez nos proporciona esses momentos.

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Para aqueles que estão curiosos, segue uma das partidas.

Marcello Urquiza x Ivan Marques da Silva

IX Campeonato Brasileiro Individual – Fase Preliminar

15/03/1990 a 09/11/1990

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=ZKDzot0SG/USK+jAIEOB7H8AFtoa93lR5yMKA6zj7BxvsmO3qCaqyvzXcDtUUJTT

1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cd2 Cf6 4.e5 Cfd7 5.Bd3 c5 6.c3 Cc6 7.Ce2 cxd4 8.cxd4 Db6 9.Cf3 f6 10.0-0

Eis o gambito: sacrifício de peão para tentar um ataque ao rei preto, que permanece no centro do tabuleiro.

A linha mais jogada é 10.exf6 Cf6 11.0-0 Bd6 12.Cc3 0-0, etc.

10.... fxe5 11.dxe5 Cde5

Numa das partidas citadas no texto, meu adversário recusou a oferta, mas perdeu rapidamente depois de 11.... Be7 12.Cf4 Cc5 13.Be3 Db2?! 14.Bc5 Bc5 15.Tb1 Da3 16.Cg5 Re7 17.Dh5 Ce5 18.C5e6 Cd3 19.Dg5+ Re8 20.Dd8+ As pretas abandonaram (Marcello Urquiza x Otávio Fonseca – correspondência - 1989).

12.Ce5 Ce5 13.Cf4

Esse é o lance que “justifica” o sacrifício. A possibilidade do xeque em h5 causa algum desconforto às pretas, mas as chances são iguais frente a uma defesa correta.

A outra possibilidade é 13.Be3, pois as pretas não podem tomar o peão de b2.

13.... Cd3 14.Cd3 Bd6

Na outra partida, as pretas jogaram 14.... g6 15.Be3 d5?! 16.Da4+?! Bd7 17.Dd4 Dd4 18.Bd4, com o jogo um pouco melhor para as brancas. Mas 16.Ce5! teria  dado uma grande vantagem.

15.Dh5+ g6 16.Dh6 Bf8

Teria sido melhor 16.... Dd4 17.Td1 Dg4 18.Te1 Dh5, com jogo igual.

17.Df4 Bg7 18.Be3

Era mais forte 18.Ce5 Dc7 19.Te1 a6 20.b3 Tf8 21.Dg3 Tf5 22.Bb2, com jogo melhor. Mas as brancas ainda mantiveram uma leve vantagem.

18.... Da6 19.Tfd1 Bd7

As pretas necessitavam resolver o problema do rei no centro do tabuleiro com 19.... Dc4 20.Dd6 Da6 21.Db4 Dc4 22.Dd2 0-0, embora as brancas continuassem com o jogo melhor.

20.Cc5 Dc6 21.Tac1 Bb2? 

Perdendo a última oportunidade de rocar. 21.... e5 22.Db4 0-0 23.Db3, apesar de que ainda estariam sob forte pressão.

Com o rei no centro e várias linhas abertas, as negras ficaram perdidas. Veremos como as brancas realizaram uma série de manobras, principalmente com a dama, que culminaram com a invasão da posição.

22.Cd7 Dd7 23.Tc7 g5 24.Dg3 Da4 25.Df3 Bf6 26.Dh5+ Rd8 27.Tdc1 De8 28.Dg5 Tf8

28.... Bg5 29.Bg5+ De7, não traria alívio.

29.Dg3 Tf7

29.... e5 30.Dg4.

30.Dd6+ Pretas abandonaram

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(*) Na planilha de uma das partidas citadas no texto, consta uma anotação feita à mão: “Ataque Urquiza”. Então fiquei em dúvida se o titulo da matéria que Fernando publicou era “Gambito” ou “Ataque”. Usei gambito neste texto, pois foi o primeiro termo que me veio à memória.






A Paraíba tem um novo Mestre Nacional

 

MN João Tejo

Campeão Brasileiro de Xadrez Seniores +65 online


A Confederação Brasileira de Xadrez promoveu o Campeonato Brasileiro de Xadrez Seniores. Este ano, ele teve o formato "online". A competição foi jogada em setembro e foi subdividida em Seniores+50 e Seniores+65 (absoluto e feminino). O tempo de jogo foi de 10 minutos.

A Paraíba, que contou com vários representantes, fez bonito no Seniores+65! João Tejo, de Campina Grande, que tinha como meta apenas obter o título de Mestre Nacional, também conquistou o título de campeão do torneio absoluto.

Joca, como é carinhosamente chamado por seus parceiros do Clube de Xadrez de Campina Grande, é aficionado do Xadrez Blitz e um dos promotores do torneio que é realizado anualmente naquela cidade.

Parabéns, Mestre Joca!






quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Boneco do Cão

O título acima não tem qualquer referência cinematográfica, tipo “Chucky”, de o Brinquedo Assassino. Se você não sabe, “cão” é uma denominação muito usada aqui no Nordeste para se referir ao inominável, ao anjo decaído.

Pois bem, todo lugar tem um jogador de xadrez folclórico para chamar de seu. E João Pessoa não é exceção. Como você já deve estar desconfiando, a capital paraibana também foi agraciada com um, cuja simpática alcunha é “Boneco do Cão”...

Como? … Não, caro leitor, ele não tem qualquer afinidade com o coisa ruim. Muito pelo contrário. Boneco ganhou esse codinome porque cogita-se que nem o “cão” aguentaria jogar com ele!


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Estava acompanhando uma conversa em um grupo do Whats App, quando foi lançado um desafio: uma disputa presencial de xadrez blitz entre João Pessoa e Campina Grande. A especulação em torno de quais jogadores comporiam as equipes começou imediatamente. Nome vai, nome vem. Tentativas de cooptação. Avaliações mil sobre as chances de cada time. E quando parecia que o pessoal de Campina estava levando vantagem naquela discussão, alguém da equipe de Jampa lembrou:

- “Calma jovem, nós temos Boneco!”

A discussão parou. Só depois de uns dez minutos, um campinense perguntou:

- “Quem boba é Boneco?!”

Mais uma expressão comum nestas paragens: “boba da peste” ou, na sua forma reduzida, “boba”. É usada para denotar surpresa, espanto.

Outro integrante do time da Rainha da Borborema ficou nervoso por desconhecer a força daquela arma secreta, e tentou minimizar:

- “Azar de João Pessoa, que tem um boneco que não pensa e não se movimenta, enquanto Campina conta com humanos.”

- “Brinque não! Ele leva o jogo a sério”. Alertou um pessoense.

- “Eu estudei só para não perder para Boneco. Foi meu incentivo”. Completou outro.

- “É horrível perder para ele”. Testemunhou um terceiro. Disse que ele e os amigos criaram um lema, um ideal: “Que eu perca para qualquer um, só não para Boneco”.

- “Para você ter uma ideia...”

E contou que certo dia, Boneco recebeu a visita de um amigo para umas partidas de blitz. Lá pelas tantas, o amigo precisou dar uma saída, e pediu a ele para ensinar algumas regras básicas para sua filha, que o estava acompanhando. Valores das peças, como elas se movimentavam, algumas jogadas, etc.

Quando o amigo retornou, Boneco estava jogando uma partida no relógio com a menina... e pressionando:

“ - Joga, mizera!”

Moral da história: a Paraíba perdeu uma promissora enxadrista.