domingo, 31 de maio de 2020

O Voo do Capivara - "Por Trás do Tabuleiro"!

Por Marcello Urquiza

Esta é uma história de amizade. Não vou dizer os nomes dos personagens, pois quero provocar a   curiosidade de vocês. Então, vou chamar um deles de amigo presenteador; e o outro, de amigo presenteado.

Pois bem. O amigo presenteador estava acompanhando uma partida do amigo presenteado, quando percebeu um drama extratabuleiro se desenrolando ali. Aquilo o fez se lembrar dos tempos em que era militar do exército.

Com a inspiração atiçada, pôs-se a escrever, mesclando suas recordações com o que estava testemunhando. Texto pronto, presenteou-o ao amigo. O amigo presenteado, sensibilizado, colocou-o numa moldura. Haveria de guardá-lo com muito carinho.

Porém, o tempo é implacável, e eis que aquele presente ficou esquecido numa gaveta qualquer. Até que, ao ler um dos textos publicados neste blog, o amigo presenteado lembrou dele.

E, agora, os presenteados somos nós! Leiam o texto. Degustem!

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Por Trás do Tabuleiro

Anos 60, anos 70. Bons tempos aqueles. Pode ser verdade e pode ser mentira, depende do prá quê. Para umas coisas sim e para outras não. Não me lembro exatamente qual foi a década que o fato aconteceu. Foram nos dias em que eu me preparava para o combate nas fileiras convencionais da defesa da Nação. Marchava um tanto fora do compasso e sem ter noção do inimigo que iria enfrentar.

Talvez, o inimigo fosse o amigo e o amigo o inimigo. Sabíamos apenas que ele era perigoso. Mas também não sabíamos o porquê.

Junto a mim, num daqueles dias, estava um companheiro que eu chamava de camarada, sem ser dos que morria pelo povo nas milícias populares. Era um tratamento também comum no nosso meio.

O camarada, como eu, era também um combatente graduado, e, fazia na época o curso de odontologia numa das faculdades do Recife. Em tom de gracejo, referindo-se ao chefe do quartel, por quem não nutria grandes simpatias, dizia o seguinte: “- Nós ainda nos encontraremos em trincheiras opostas”. Talvez, vislumbrando a oportunidade de ver um dia o clima de desespero na face do dito chefe, ao investir contra sua boca com um daqueles desagradáveis alicates cirúrgicos, para extrair um dos seus velhos molares.

Era o sonho do pequeno contra o grande. A reação contra a soberba da autoridade. Apenas um gracejo que certamente, nunca se concretizou. Afinal, gracejo não é aspiração de vida.

Mais recentemente, engalonado, porém romântico pelas poesias que fazia, outro chefe, como daqueles tempos, já afastado das linhas de combate e vindo de plagas distantes, esforçava-se para mostrar os seus valores e, sobrepujar em porfia diferente um humilde funcionário da justiça federal. Foi numa partida de xadrez num clube onde se pratica aquele esporte, também lá pelas bandas do Recife. Era novamente, em trincheiras opostas, David contra Golias. E, como na fábula, prevaleceu a supremacia de David.

Percebendo o grande combatente sua derrota iminente, para um simples desaforado da justiça, deteve-se quanto à atitude a adotar. Não poderia aceitar aquela situação. Iria levar mate no lance seguinte. Algo como a hora do êxtase, assim como diz na poesia, que quando não dá prá segurar explode o coração. Era mate sem alternativa de defesa, logo de um desaforado! Dizia consigo mesmo. Não poderia admitir. Seria o check-mate sobre um combatente inflado pelos galões do alto posto que ocupava. O que fazer, para superar aquela situação? O que fazer? Questionava ele. Se o dilema fosse noutro esporte, poderíamos dizer tratar-se de uma sinuca de bico, mas no xadrez, estava em check mesmo. O drama era tanto, que nem sequer mais enxergava o tabuleiro a sua frente. Contudo, era o que menos importava naquele momento. Pensava em diversas saídas, menos em abandonar a partida, que era a lógica imposta pela posição. Mas isso ele não faria, seria mostrar a sua fraqueza ao reconhecer a engenhosidade de seu adversário. Resolutamente disse não. Um combatente jamais se entrega! Tinha que ir até o fim. Seus valores não podiam ser superados e nem seus brios feridos assim, sem mais nem menos. E, enquanto pensava, o tempo passava. Até que finalmente a seta do seu relógio caiu. O seu tempo de pensar na partida havia expirado. A estratégia silenciosamente adotada coroava-se de êxito! Enfim a grande saída! E então, singelamente expressou: “- Perdi pelo Tempo!”

Marcos Ivan – 23/01/1999

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Como perceberam, o amigo presenteador é Marcos Ivan. E o amigo desaforado dele? É João Carlos Zirpoli. Conheço Marcos Ivan desde os anos 1970, mas só tive a satisfação de conhecer Zirpoli após meu retorno ao xadrez, em 2018. Ambos são do Recife. E, para que vocês não me acusem de estar mentido, segue a foto do texto original, devidamente acondicionado em uma moldura.



domingo, 17 de maio de 2020

O Voo do Capivara – “Deixei o GM em zug!”

Por Marcello Urquiza

Não sentamos ao lado de Caíssa, lá no Olimpo, pois, meros mortais que somos, não nos cabe esse lugar. Mas, devido à devoção que lhe dedicamos, ela nos concede, vez por outra, alguns momentos de inspiração, os quais nos fazem produzir aquela partida que se tornará inesquecível para nós mesmos. Até que poderíamos chamá-las pelo pomposo nome de “As Imortais dos Capivaras”. É um tanto contraditório, bem sei, porém não me ocorre outra denominação. O que você acha?

Outro dia, publiquei uma partida que joguei há 36 anos. Nunca a esqueci. Você, caro leitor, também deve possuir alguma da qual lembra com a mesma satisfação. Compartilhe-a conosco, afinal, não é todo dia que capivara dá capivarada! 

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Nosso primeiro convidado é o paraibano Sílvio Sá de Melo, que nos presenteia com a sua partida preferida. Sílvio é filho do grande Fernando Melo, criador deste blog. Mas, antes que você pense alguma bobagem, ele está aqui por mérito próprio. Veja por si mesmo.

Em 25/07/1991, o GM Gilberto Milos deu uma simultânea  no Hotel Tambaú, em João Pessoa (PB). O  evento fez parte do Circuito Prosdócimo de Xadrez,  que também contou com um torneio de rápidas. Milos já era tetracampeão brasileiro. Posteriormente, ganhou mais dois campeonatos, os de  1994 e 1995. GM desde 1988, ele estava no auge da forma.

Ele enfrentou 25 adversários, vencendo 22 deles e empatando com Ítalo Matias e com este que vos escreve. A única derrota, como você já deve ter deduzido, foi para Sílvio.




Na  foto acima, já um tanto desgastada pelo tempo, vê-se Dr. Luiz Tavares, campeão do Brasil em 1957, ladeado pelo MN Douglas Torres e por mim, cumprimentando Milos naquele momento.

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Vamos à partida.

Gilberto Milos  x  Sílvio Melo
Simultânea – 25/07/1991

1.d4  d5   2.c4  e6   3.Cc3  Cf6   4.Bg5   Be7   5.e3  0-0   6.Cf3  b6   7.Dc2  Bb7   8.cxd5  Cd5  9.Be7  De7  10.Cd5  exd5  11.Bd3  h6  12.Tc1  Db4+ 

Silvio disse que esse foi um lance profilático, tipo “antimassacre”.  A troca das damas tinha o objetivo de evitar essa circunstância tão desagradável. Afinal, ele sabia com quem estava jogando.

13.Dd2  Dd2   14.Rd2  c6   15.Ce5  Td8   16.b4 

Em que pese ter atingido seu objetivo, a posição resultante é favorável às brancas. Silvio tem dificuldades para concluir seu desenvolvimento, tem uma debilidade em c6 e está impedido de fazer a ruptura central com “c5”. Isso iria exigir um grande esforço defensivo.

16....  a6   17.Tc2  Td6   18.Thc1  f6   19.Cg6  Rf7   20.h4  Cd7   21.h5  b5   22.Ch4



Ao propor a troca das damas, Silvio optou por um jogo defensivo e, desde então, seus lances foram corretos, compatíveis com as necessidades de sua posição. E, então, foi recompensado por seus esforços.

Observe que os últimos lances das brancas visavam ao bloqueio da ala do rei, quando, na verdade, a posição exigia um jogo mais enérgico na outra ala. Por exemplo: com 21.a4  b5  22.a5, a ala da dama estaria definitivamente bloqueada, só então as atenções deveriam ser dirigidas ao outro lado do tabuleiro.

22.a4  bxa4  23.g4, continuando com o plano de bloqueio no ala do rei, também era possível e ainda manteria a vantagem das brancas.

Ao permitir 22....  Cb6, as brancas renunciaram a qualquer jogo ativo na ala da dama.

Esse é o ponto de inflexão da partida. Veremos como as pretas assumem gradativamente o controle das ações.

22....  Cb6  23.Bg6+  Rf8  24.Bd3  a5 

As pretas têm a iniciativa.

25.Cf5  Tdd8  26.bxa5  Ta5  27.g4  Cc4  28.Bc4 

Uma decisão difícil de tomar. Deixar esse cavalo em c4, sufocando o jogo das brancas, ou trocá-lo e permitir a formação de uma perigosa falange de peões?

28....  dxc4  29.Tb2  Ta3

Dr. Fritz notou que esse lance foi uma imprecisão, pois permitiria às brancas  30.Tc4! bxc4  31.Tb7, com chances iguais.

30.Tcc2  Bc8  31.Tc3  Ta5  32.Tc1  Bf5  33.gxf5  Tda8  34.Tcc2  Ta3  35.Re2  Td3 

Provocando a troca de uma das torres. A simplificação do jogo tornaria a tarefa mais fácil, segundo Sílvio, pois, a essa altura da simultânea, o “homem” estava dando voltas cada vez mais rápido. Não era uma boa ideia buscar linhas mais complexas.
 
36.Td2  Td2  37.Td2  Re7  38.f4 

Teria sido melhor 38.e4, buscando contrajogo. Apesar de que, após 38....  Ta3  39.e5  Th3  40.d5  c3  41.Td1  c2  42.Tc1  fxe5  43.Tc2  cxd5, as pretas continuariam com jogo melhor. Agora,  a vantagem é decisiva.

38....  Ta3   39.Rf3  Rd6   40.Tg2  Ta7

Bastaria 40....  Rd5, e se 41.Tg7  c3, com ideia de Rc4. Mas o “homem” continuava a dar  voltas muito rápido. Então, “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”.

41.Te2

 Se 41.e4, então 41....  Ta3+  42.Rg4  Te3  43.e5+  Rd5  44.e6  c3, ganhando
 
41.... Rd5   42.Tc2  b4   43.Td2  c3   44.Tc2  Rc4   45.Re2  Ta5  46.Rf3  Rd3  47.Brancas abandonam

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Quando reproduzi essa partida, fiquei admirado pela forma como Silvio Melo manteve o controle do jogo. Ele explorou sua vantagem de forma instrutiva. A imprecisão do lance 29 em nada desmerece o seu feito. O título deste texto é a forma como Sílvio expressou sua satisfação com essa vitória.

Parabéns, Mestre!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Voo do Capivara – E capivara também voa?

Por Marcello Urquiza


Estamos iniciando uma nova seção, a qual receberá o simpático nome de “O Voo do Capivara”.

Portanto, essa não será uma história de desventura. Afinal de contas, capivara também é gente! E há dias em que ele voa. Em homenagem aos voos dos capivaras, publico a foto abaixo, que achei  na Internet. Vejam como é  leve e gracioso.




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Isto posto, e para que você saiba do que se trata, vou me apressar e dar um “spoiler”.

A partida abaixo transcrita me trouxe enorme satisfação. Num jogo que definiria um dos finalistas de um torneio, enfrentei um fortíssimo adversário e, ainda, tive de fazer 15 movimentos em apenas 5 minutos. Apesar disso e das complicações propostas por meu oponente, mantive o sangue frio e consegui executá-los sem maiores deslizes.

E você, caro leitor? Já jogou alguma partida que lhe porporcionou essa satisfação? Quer compartilhá-la conosco?

Pronto! Agora que você já está sabendo de tudo, mande um e-mail para marcellourquiza@bol.com.br. Iremos publicar sua partida preferida.

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Em 1978, recebi um convite do MF Marcos Asfora, então um dos mais fortes enxadristas do país, para jogar um match. Recém-chegado à capital pernambucana, aquele convite me deixou muito honrado. Jogamos 4 partidas. Consegui empatar uma delas.

Posteriormente, tivemos mais três encontros, sendo dois presenciais e um por correspondência. A partida abaixo foi jogada na 4ª rodada do I Torneio Cidade do Natal, em 1984. O vencedor iria disputar o título na última rodada.

Marcello Urquiza  x  Marco Asfora
Natal – 03/11/1984

1.e4  Cc6

Nem sei o nome que se dá a essa defesa. Mas a razão pela qual Marquinho jogou esse inusitado lance merece um exame. Em tempo, não estranhem a intimidade, pois era assim que o chamávamos naquela época.

Durante algum tempo, adotei a Abertura Orangotango (1.b4). Tinha um motivo para isso: a preguiça. Não conseguia estudar aberturas. Então, entendia que, se jogasse algo desconhecido, eu e meu adversário estaríamos em condições de igualdade, no que diz respeito à preperação teórica. Um ano antes, jogando pelo Torneio Poupança Bandepe, enfrentei Asfora usando essa abertura e, pasmem, ganhei!

Primeira hipótese. Queria ele me dar o troco, usando agora uma defesa também excêntrica?

Outro fato que pode tê-lo motivado foi que, após a 3ª rodada, e já conhecido o emparceiramento, comprei um Informador.

Segunda hipótese. Teria ele suspeitado de que eu iria preparar alguma linha para enfrentá-lo no dia seguinte  e, por isso, fugiu do rotineiro?

É claro que isso é um mero exercício especulativo, mas vale como um “causo” a ser contado. Só quem pode confirmar a correção dessas hipóteses é o próprio Marco.

2.d4  d5  3.e5  Bf5  4.Cf3  e6  5.Be2  Cb4  6.Ca3  c5  7.0-0  Cc6  8.Be3  f6  9.c4
 
Uma pequena análise restrospectiva: observem que, em apenas 7 lances, um dos cavalos das pretas moveu três vezes, atrasando o desenvolvimento das demais peças. As brancas, ao contrário, renunciaram ao lance “c3” para priorizar esse desenvolvimento.

Nesse contexto, o lance “f6” foi um erro  grave, pois não se deve abrir linhas quando o desenvolvimento está atrasado. As pretas  deveriam ter jogado “c4”.

Agora, temos uma verdadeira guerra de nervos no centro.

9....  fxe5  10.cxd5  exd5  11.Ce5  Cf6

As pretas entregam um peão em troca do seu desenvolvimento. A tentativa de evitar essa perda material não seria uma boa opção. Por exemplo: 11....  Ce5  12.dxe5  d4  13.Bb5  Bd7  14.e6  Bb5  15.Cb5, e se 15....  dxe3  16.Dh5  g6  17.Df3  Ch6  18.fxe3, com forte ataque. Se 11....  cxd4, então 12.Bd4  Cd4  13.Dd4  Ba3  14.bxa3  Cf6  15.Da4, mantendo a pressão.

12.Bb5  Tc8  13.dxc5  Be7  14.Cc2  0-0  15.Bc6  bxc6  16.Cd4  Bd7  17.b4  Dc7  18.Cd7  Dd7  19.f3  Bd8  20.Dd2  Ch5  21.Tae1  Bc2  22.Bg5  Tce8  23.Te8  Te8  24.Te1  Be5  25.Be3  Dc7




Consegui manter um vantagem relevante. Mas as pretas, a partir do lance 19....  Bd8, iniciaram um movimento que visava obter algum contrajogo, colocando pressão sobre o rei branco. Acrescente-se a isso o fator tempo, pois tinha de jogar os próximos 15 lances em apenas 5 minutos. Um campo fértil para o erro, pois naquela época não havia o incremento de tempo.

26.g4  Cf6  27.Te2  Dd7  28.Cf5  d4

Ameaçei jogar Bd4, consolidando a posição. As pretas, acertadamente, avançam o peão em busca de complicações. Tic-tac, tic-tac... Não posso capturar o peão. Meu bispo está cravado.

29.Bg5 

Teria sido melhor 29.Bf2, mantendo a ameaça sobre o peão. As brancas ainda possuem uma confortável vantagem. Mas, agora, as pretas poderiam ter incrementado  as  complicações  com  29....  h5   30.h3  d3  31.Te1  Ch7.

29....  Cd5  30.De1  Ce3  31.Ce3

Deveria ter jogado 31.Be3  dxe3  32.Te3  Bd4  33.Cd4  Dd4  34.Rf2, com vantagem de dois peões. Mas, tic-tac, tic-tac...  Com pouco tempo para decidir, quis evitar eventuais complicações decorrentes da cravada em “d4”.

Dr. Fritz, com seus nervos de silício, diz que as pretas poderiam ter jogado 31....  d3  32.Td2  Bc3  33.Dd1  Bd2  34.Dd2  Dd4  35.Rf2, trocando duas peças pela torre, mas especulando com o peão passado em “d3”. Mas acho que esse é um tipo de decisão muito difícil de ser tomada, no calor da batalha.

31....  dxe3  32.Be3  Tf8  33.Rg2  Dd3  34.Df2  Dc4  35.a3  h5  36.h3  Bc7

Opa! Cedendo a casa “d4” para meu bispo. Tic-tac, tic-tac... Mas já começava a ver uma tênue luz no fim do túnel.           
           
37.Bd4  hxg4  38.hxg4  Dd3  39.Te7  Tf7  40.Te8  Tf8

Ufa! Se 40....  Rh7  41.Dh4

41.Da2  Rh7  42.Tf8  Dd4  43.Dg8  Rg6  44.De6

Já relaxado, não percebi que Df7, seguido de Dh5, levava ao mate.

44....  Rh7  45.Df5  g6  46.Tf7  Rh8  47.Dc8  Bd8  48.Tf8  Rg7  49.Dd8  Pretas abandonam.

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Empatei com o mestre cearense, Fred Saboya, na última rodada. Terminamos com 4,5 pontos, cada, mas fiquei em 2º lugar por conta dos critérios de desempate.

domingo, 5 de abril de 2020

Desventuras de um Capivara III – Vade Retro!

Por Marcello Urquiza

“A mão invisível do mercado” foi um termo cunhado pelo filósofo e economista Adam Smith, lá pelos idos de 1759, e que hoje caracteriza determinada teoria econômica. “A mão invisível da capivara” é uma hipótese parapsicológica, levantada pelo ilustre capivara que vos escreve. Abordarei esse tema com maior profundidade nas linhas que se seguem.

Estávamos na 4ª rodada do XII Memorial Governador Miguel Arraes – Nordestão 2019, lá em Recife (PE). Tinha sido emparceirado com o MF Francisco Cavalcanti, um dos mais importantes jogadores da Paraíba. Salve, grande Chiquinho!

MF Francisco Cavalcanti x Marcello Urquiza
Nordestão 2019 – 31/08/2019

1.Cf3  Cf6  2.d4  d5  3.c4  dxc4  4.Da6  c6  5.Dc4  Bg4  6.Ce5

Já conhecia essa posição. Dias antes, eu tinha participado de um torneio de rápidas em João Pessoa (PB). Na partida com Petrov Baltar, tive a seguinte dúvida: se jogo Be6,  vou atrapalhar o desenvolvimento da ala do rei; com Bh5, eu temia que meu bispo ficasse fora do jogo. Depois de alguma reflexão, resolvi tomar uma decisão salomônica. Nem e6 e nem h5. Iria jogar Bf5! 

Gostaria de ter visto minha expressão quando Petrov fez 7.Df7 – xeque-mate! Tinha acabado de levar um mate pastor!!

6.... Bh5  7.Cc3  e6  8.e4  Cbd7  9.Cd7  Dd7 

Pensei em jogar Cd7, mas, lhe confesso, não o fiz porque não gostei da estética da posição. Pode isso? O certo é que, agora, minhas peças não estavam coordenadas para apoiar a ruptura central.

10.f3  Be7  11.Be3  0-0  12.Be2  Tac8  13.0-0  b5  14.Dd3  Tfd8  15.Tfd1  Db7  16.Dc2  Cd7

Preparando a ruptura. Posição que o cavalo deveria estar desde o 9º lance.

17.a3  Bg6  18.Db3  a6  19.Tac1  c5  20.dxc5

Se 20. d5, as pretas jogariam c4, seguido de Cc5, com bom jogo. Depois de dxc5, a posição está igualada.

20....  Cc5  21.Da2  Td1  22.Td1  Dc7  23.Tc1  Db8  24.b4  Cd7  25.Bf1  Bd6   26.g3  Ce5  27.Rg2  h5  28.Bf2  Cc4?! 

Pura insegurança. Quis liberar a diagonal para jogar h4. E por que não jogá-lo imediatamente? Mestre Chiquinho, certamente, não iria fragilizar seu rei com gxh4.

29.Cb1

Deixando escapar a oportunidade de tomar a iniciativa do jogo com 29.Ca4!.

29.... Ce5  30.Tc8  Dc8  31.Dd2  Dc7  32.Cc3  h4  33.Be2  hxg3  34.hxg3  Dc6  35.Dd4  Cd7 36.Cd1  Be5  37.Da7  f5  38.exf5  Bf5  39.Ce3  Bg6  40.Cg4  Bb2  41.De3  Bf5  42.Dg5  Bg4 43.Dg4  Cf6  44.Dg6  Be5  45.Bc5  Bb2  46.Dd3  Dd5  47.De3  Rf7  48.Rf2  Da2??

Veja bem, caro leitor, sob o olhar objetivo do Dr.Fritz, esse lance não compromete a partida, desde que o peão não seja capturado e a dama retorne ao seu posto. Então por que as duas interrogações? Porque a decisão de capturar já estava tomada.



A posição do diagrama lembra a política de dissuasão praticada durante a Guerra Fria. EUA e URSS tinham, cada qual, um monte de bombas atômicas. Aí um dizia ao outro: “se você jogar uma bomba em mim, eu jogo outra em você!”. E, assim, vivemos por um tempo sob aquele frágil equilíbrio.

Mesma situação nessa partida. As damas representam as bombas.  Resolvi atacar um alvo insignificante, num cantinho bem distante do território inimigo, com Da2.

“-É assim? Então vou jogar uma bomba na capital do seu território!”

Caro leitor, você há de concordar comigo. Salvo umas poucas imprecisões, eu tinha feito um bom trabalho até esse momento. Tive a cautela de não capturar o peão de “a3” nos lances 43 e 44. Temia me expor a um ataque. A posição estava igualada, e a partida se encaminhando para um justo empate. Como explicar a mudança no meu comportamento? Tenho uma hipótese, mas só a apresento depois.

49.Df4  Da3   (49.... Dd5=)   50.g4?

50.Dc7 seria decisivo. Algumas linhas:

a) 50.... Rg6  51.Dd6  Cd5 (Para qualquer outra resposta, as brancas jogariam Bd3, com ataque só defensável mediante entrega de material) 52.De6  Cf6  53.Dd6, voltando a ameaçar Bd3, agora sem a possibilidade de defesa através de Cd5.
b) 50.... Rg8  51.Dd8, seguido de Bd3.

Agora, as pretas têm a chance de igualar novamente.

50....  Bc1  51.Dc7  Rg6  52.Bf8

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Parem o filme!  Essa é a posição que vai embasar minha hipótese!


Você já deve ter percebido que as brancas ameaçam mate com Dg7. Dê mais uma olhada no diagrama. Percebeu que Bd3 é também outra ameaça muito séria? A essa altura, eu já tinha visto  tudo isso. Então concluí que necessitava manter minha dama em “a3”, para defender Bd3, e que, portanto, Bh6 era forçado.

Tanto é que, nas conversas que mantive com Dr. Fritz, ele argumentou que, para Bh6, a melhor resposta seria 53. De5, com igualdade.

Então, convicto da necessidade de Bh6, joguei...

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52.... De3+??

“Endoidou, foi?”. Sei não. Mas sabia que, agora,  a dama tinha de  fazer a defesa simultânea dos 02 pontos ameaçados. Tarefa impossível.

Nas análises “post-mortem”, Mestre Chiquinho argumentou que responderia a Bh6 com g5. Vejamos o que aconteceria: 52.... - Bh6  53.g5  Bg5  54.Dg7  Rf5 e, apesar dessa preocupante   posição, o rei não está acessível às brancas. Paradoxalmente, o rei branco é quem está mais exposto agora. As pretas têm acesso através de “e3” ou “h4”.

Seguiu:

53.Rf1  Ch5  54.gxh5  Rh5  55.Dg7  Df4  56.Dh7  Pretas abandonam.

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Ainda nas discussões do “port-mortem”, quando fiz a defesa enfática de Bh6, Mestre Chiquinho perguntou:

“ - E por que não jogou?”

“ - Sei lá. Alguma loucura.” Respondi.

Porém, Dr. Fritz apresentou uma alternativa. E se 52.... Ce4+, ao invés de Bh6?  As linhas abaixo são algumas das possibilidades:

a) 53.fxe4  De3+  54.Rf1 (Se 54.Re1  Dg1+)  54.... Dh3+  55.Re1  Bh6 (Ameaçando Dh1 e Dc1. Note que o rei preto não está acessível). 56.Dd6  Dc1+  57.Rb3  Db1+, com possível empate.
b) 53.Rf1  Dc3  54.Dd7  Cg3+  55.Rf2  De3+  56.Rg3  Dg1+  57.Rh3  Dh1+, com empate.

É possível que eu tenha vislumbrado essa alternativa e que, ao tentar executá-la, tenha invertido a ordem dos lances? Se você é daqueles que buscam respostas racionais a determinados fenômenos, então vai concordar: “-Sim. É possível que você tenha intuitivamente percebido”.

Quanto a mim, prefiro me garantir. Sabe-se lá se não foi aquela mãozinha, que citei no primeiro parágrafo, quem me obrigou a jogar De3! Então...

Vade retro, capivara!

domingo, 22 de março de 2020

Desventuras de um Capivara II – Fui querer ganhar bonito...

Por Marcello Urquiza


Era a 9ª rodada do Continental 2019, lá em São Paulo. Meu adversário seria um jovem talento paulista, o Enzo Federzoni. Pouco antes do início da partida, a direção do torneio anunciou que, quem estivesse com 50% dos pontos a partir daquela rodada,  faria jus ao título de Mestre Nacional.

Oba! Eu estava com 4 pontos. Um empate já me daria o título. Fiz cara de “pidão” para o Enzo, mas ele fez cara de paisagem. Então vamos jogar. Fazer o quê?

Marcello Urquiza   x   Enzo Federzoni
Continental – 11/07/2019

1.e4  c5   2.Cf3  d6   3.d4  cxd4   4.Dd4  Cc6   5.Bb5  Bd7   6.Bc6  Bc6  7.Cc3  e5  8.Dd3  h6  9.Cd2  Cf6   10.Cc4  b5   11.Ce3  Be7   12.Cf5  g6   13.Ce7  De7   14.0-0  b4   15.Cd5  Bd5  16.exd5  Db7  17.Td1  Rf8  18.c4  bxc   19.bxc3  Rg7   20.Ba3  Dc7   21.Tac1  Cd7   22.c4  Cc5  23.De3  Tac8  24.f4  e4  25.Bb2  f6 
         
Meu próximo lance implicaria no sacrifício de uma qualidade. Após uns 20 minutos de indecisão, tomei coragem e resolvi seguir o plano.

26.g4  Cd3  27.Td3  exd3  28.g5  The8  29.Bf6  Rh7
           
Dr. Fritz, o que acha desse lance?  “- É duvidoso. Melhor teria sido 29. … - Rf7”. Paradoxal, né? As brancas têm um ataque que aparenta ser promissor. Por que  então  colocar o rei numa casa onde, em tese, ficaria mais exposto?  Porque em f7 ele estaria mais próximo do centro no final que se aproxima. Por outro lado, em h7 ele estará sujeito a sérias ameaças,  caso a torrre branca alcance a 7ª ou 8ª filas.

30. Dd3  Dd7  31.h3  h5  32.Rg2  Df5  33. Df5  gxf5  34.Rf3  Te4?

Sem perceber as possibilidades táticas da posição, as pretas vão avidamente em busca do peão de c4. 34....  Tc5=.

35. c5!
            
As pretas não podem tomar o peão “c” em  hipótese nenhuma, pois o seu colega em “d” passaria incólume. Vou deixar a confirmação dessa afirmativa a seu cargo, caro leitor. Mas meu adversário chegou à mesma conclusão e preferiu jogar:

35....  Ta4

A posição resultante é a razão dessa postagem. (Diagrama abaixo).





O que você faria agora? Pensei em jogar c6, que é um lance muito bom. Mas Dr.Fritz está me dizendo que existem opções ainda melhores. Você deve estar se perguntando:  “Oxente, então o que foi que assucedeu?”. Ok. Vou tentar fazer uma avaliação da posição depois de c6. Depois eu conto o que se passou. 

Kasparov disse que há 03 dimensões no xadrez: a material, o tempo e a qualidade. Vejamos:

- na dimensão material, as pretas, caso tomassem o peão de a2, teria torre (5) por bispo e peão (3+1). Em termos absolutos, teriam vantagem material.

- e na dimensão qualidade? A torre preta de c8 vale mais do que o bispo branco? O rei preto está melhor posicionado que o  branco? As pretas têm um peão com força equivalente ao do peão “c”? Não, não e não. A única peça preta ativa é a torre em a4, que sozinha não pode fazer nada.  A torre branca logo invadirá as linhas 7 ou 8, com ameaças terríveis.
            
Agora, conto o que aconteceu. Enquanto fazia essas ponderações, vislumbrei outra possibilidade. E se, ao invés de 36.c6,  eu jogasse 36.cxd6?  Depois de 36....  Tc1  37. d7, eu teria um peão a um passo de ser coroado, apoiado pelo bispo e protegido pelo peão de d5. Meu rei receberia alguns xeques, mas logo se abrigaria em d6. Tranquilo!
            
Com 02 opções, meu problema era decidir como ganhar. De  forma simples ou bonita?  Aquela capivara da primeira postagem logo se assanhou e soprou no meu ouvido: “- Se é para ganhar, que ganhe bonito! Você vai receber o prêmio de beleza do torneio”. Arregalei os olhos! Então:

36.cxd6  Tc1  37.d7

Pronto. Mas... e a dimensão tempo? Essa dimensão se manifesta quando um dos lados tem alguma vantagem transitória que precisa ser materializada antes que o adversário consiga se recompor. No caso presente, terei tempo de coroar meu peão?
            
Pois bem, tomei uma decisão baseada em uma avaliação geral da posição. Não fiz um mísero cálculo sequer.

37....  Ta3  38.Re2  Ta2  39.Re3  Te1  40.Rd4  Td1  41.Re5  Te2

Então eu me dei conta da besteira que fiz. 42.Rd6 não serve. 42.Rd6  Ted2  43.Rc7  Td5  44.d8 =D  Td8  45.Bd8  Td8  46.Rd8  a5.

Com o orgulho ferido e vendo meu título de Mestre Nacional descer  ralo abaixo, joguei mais uns lances antes de abandonar.

42.Rf5  Td5  43.Be5  Td7  44.Re6  Td8  45.Rf7  Te5  46.g6  Rh6  47.Brancas abandonam.

-x-x-x-x-

Vida que segue. Em janeiro/2020, fui jogar o Floripa Chess Open. Lá pelas tantas, enfrentei um adversário, que depois me procurou:

“-Tenho um amigo chamado Enzo”.

“-Enzo Federzoni? Conheço. Joguei como ele lá no Continental”.

Aí ele me fez uma revelação:

“-Ele disse que você pôs as mãos na cabeça e balbuciou baixinho: Marcello, Marcello, Marcello...”

Hã?? Não lembrava! Encabulado, tentei me justificar:

“-Fiz um sacrifício errado e perdi uma partida ganha...”      

Depois disso, sempre que nos encontrávamos no salão de jogos, lá vinha ele:

“-Marcello, Marcello, Marcello...”
“-Marcello, Marcello, Marcello...”
            
Putz! Desgraça pouca é bobagem!

Nota da Federação

A Federação Paraibana de Xadrez não promove e nem apoia qualquer modalidade de torneio (clássico, ativo, blitz), no território paraibano, enquanto permanecer suspensa essa atividade, em atenção ao que determina o Ministério da Saúde, Governo do Estado da Paraíba e Prefeitura Municipal de João Pessoa.