sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Desventuras de um Capivara – Um golpe de misericórdia

Como foi seu primeiro contato com o xadrez? Alguns responderão que foi na escola; outros, que aprenderam com o pai; mais alguns, vendo outras pessoas jogarem. São inúmeros, os desígnios do destino.

O meu foi engraçado, literalmente. Pois, foi através de Renato Aragão e sua trupe. Em 1972, Os Trapalhões criaram um quadro para parodiar as polêmicas que Bobby Fischer provocava durante o match contra Spasski. Além de achar graça, aquilo despertou minha curiosidade. Que jogo era aquele? Tinha 11 anos e já gostava de jogar damas com meu pai.

Mas aquela semente teve de ficar adormecida, pois, morando em Bom Conselho, no interior de Pernambuco, não conhecia ninguém que jogasse. Até que, lendo um livro, encontrei um encarte que anunciava uma promoção. Quem comprasse o item anunciado, ganharia um jogo de xadrez. Não tive dúvidas. E, alguns dias depois, recebi a encomenda. Um pequeno tabuleiro em papelão, com as imagens das peças impressas em círculos também de papelão e, para completar, um manual com as regras do jogo. Para os olhos apaixonados daquele garoto, eles pareciam lindos!

E lá fui eu, sozinho, tentar decifrar aquele emaranhado de informações. Mas, sem nenhuma interação com outros jogadores, o progresso era limitado.

Certo dia, folheando a revista Manchete, da qual minha mãe era assinante, me deparei com uma coluna de xadrez, escrita por Valério Andrade. Que grande achado! De imediato, resgatei todas as edições anteriores ainda guardadas. Cortei-as e colei-as num caderno. Esse foi o meu primeiro contato com o xadrez magistral. Depois, fui acrescentando colunas de outros autores, como as de Herman Claudius, Alexandru Segal e de Herbert Carvalho. Ainda guardo esse caderno, com muito carinho. Quem nunca teve um?


Através de uma dessas colunas, descobri a existência do Clube de Xadrez Epistolar Brasileiro – CXEB. E, assim, passei, finalmente, a jogar xadrez. Só que por correspondência. Mas aí cabe outro “causo”, que deixarei para contar depois.

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Em 1977, meus pais resolveram nos mandar para Recife. Eu e meu irmão mais velho. Estávamos no ensino médio e precisávamos nos preparar para o vestibular. Fomos matriculados no tradicional Colégio Nóbrega.

Por obra e graça de Caíssa, era o mesmo colégio onde estudava Flavio Daher. Jovem e talentoso jogador pernambucano. Tinha participado da final do campeonato brasileiro de 1976, em João Pessoa (PB).

Através dele, fui apresentado à comunidade enxadrística local e passei a participar ativamente dos eventos organizados no Clube de Xadrez do Recife. Tenho na memória, e nas planilhas arquivadas, os nomes de muitos com os quais tive a satisfação de conviver.

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Em 1978, integrei a equipe que jogaria os Jogos Estudantis Brasileiros, em Natal (RN). O time também contava com Flávio Daher. Não me recordo dos nomes dos demais jogadores. Se você, caro leitor, for um deles, faça um comentário e me ajude a recompor esse quadro.

Tinha um outro integrante, do qual só fui me lembrar recentemente. Conversando com Marden, meu irmão mais novo, ele se saiu com essa pergunta: “- E aquele cara, que abria um coco apenas com um golpe do dedo indicador?”.

Poxa vida! Era o nosso técnico, Ives Mayal. O moço era carateca. A espessura de seus dedos era assustadora, mas essa história de abrir coco era dita por meus colegas. Ele apenas sorria. Logo a mim, que vivia assistindo filmes de Bruce Lee, no Cine Brasília, lá em Bom Conselho. Fiquei encantado com tudo aquilo. Ah, a ingenuidade juvenil!

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Seguimos para Natal. Lá, resolveu-se que Flávio jogaria no segundo tabuleiro. Uma estratégia comum, mas que também tem seus riscos. O jogador mais forte em tabuleiro inferior, para amealhar uma maior quantidade de pontos; e o jogador que ocuparia o seu lugar, ficaria encarregado de arrancar uns pontinhos dos jogadores mais fortes das outras equipes. E lá fui eu, ocupar o primeiro tabuleiro.

Concluída a penúltima rodada, meu desempenho era de uma vitória, dois empates e duas derrotas. Estava razoável, em face da estratégia traçada pela equipe.

Àquela altura, o Estado de São Paulo liderava a competição com folga. A memória me falha em relação a quem ocupava o segundo lugar. Mas a disputa pelo terceiro estava acirrada. A Paraíba estava apenas meio ponto à frente de Pernambuco.

Corremos para o alojamento e, avidamente, nos pusemos a fazer os cálculos. Chegamos à conclusão de que, se conseguíssemos tirar aquela desvantagem, a medalha de bronze seria nossa, pois estávamos melhor nos critérios de desempate.

E assim seguiu. A Paraíba enfrentaria o Rio de Janeiro, e Pernambuco tinha o Rio Grande do Norte pela frente. Joguei contra Maurício Bezerra Noronha. 

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Maurício Bezerra Noronha x Marcello Urquiza

Natal (RN) – 13/07/1978

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=XR6fInEPlmIPGkEBDXbgrSUdrZNh4c9irjJ5M8qXPpurqV91/dGvbtW1yN4Wre7F

1.Cf3 d5 2.c4 Cf6 3.b3 Bf5 4.g3 e6 5.Bb2 h6 6.Bg2 Be7 7.0-0 Cbd7 8.Te1 0-0 9.d4 Ce4 10.Cfd2 Cdf6 11.Ce4 Ce4 12.f3 Cf6 13.e4 dxe4 14.fxe4 Bg4 15.Dc1 c6 16.Df4 Bh5 17.a3 Db6 18.De3 Cg4 19.Dc3

Acredito que, mesmo se você der apenas uma olhada rápida nessa posição, verá que ela tem um “cheirinho de tática”. A diagonal g1-a7 é débil, o peão de “d4” está sujeito a uma cravada e, por conseguinte, o rei branco está numa posição perigosa.

Recordo que percebi essa situação, mas não encontrei um jeito de explorá-la. Não vou me recriminar por isso, mas havia um caminho. Veja o que Dr. Fritz indicou:

19.... e5 20.b4 c5! (Veja que lance magnífico. O peão de “d” continua paralisado). Por exemplo:

- Se 21.d5 ou dxe5, então cxb4+, ganhando a dama.

- Se 21.dxc5 ou bxc5, 21.... Bc5, seguido de Dc5+, com posição ganhadora.

19.... Tad8 20.c5 Dc7 21.d5 Bf6 22.e5 Be5 23.Te5 De5 24.De5 Ce5 25.Be5


A posição só me oferece duas alternativas: exd5 ou cxd5. Em ambos os casos, as pretas ficariam com torre e dois peões por duas peças menores.

Com 25.... exd5, as pretas ficariam com uma posição sem debilidades e com a coluna “e” para suas torres. Seria uma posição muito difícil de ganhar, mas também muito difícil de perder. Lembrando que meio ponto ajudaria bastante a equipe.

Mas avaliei que os dois peões centrais passados me daria chance de vitória. Se não me recriminei antes, foi porque entendei que o lance 20.... c5 era muito difícil. Estava acima da minha capacidade técnica.

Mas agora, não! Ter optado por 25.... cxd5 foi uma capivarada grotesca. Veja o porquê: permite a formação de uma maioria de peões na ala da dama para as brancas, meus peões centrais eram facilmente bloqueáveis e, para piorar, minhas torres não ficaram com uma coluna sequer para trabalhar.  

No afã juvenil de sempre querer ganhar, eu renunciei a qualquer jogo ativo. Se bem que já não sou tão jovem, mas esse ímpeto ainda persevera.

25.... cxd5 26.Bd6 Tfe8

Teria sido melhor 26.... Td6, mas aí seria reconhecer que 25.... cxd5 foi um erro. Ainda era muito cedo para perceber.

27.Cc3 a6 28.Ca4 Bg6 29.Cc3 Bc2 30.b4 f5 31.Ta2 Be4 32.Ce4 fxe4 33.Rf2


À essa altura, as demais partidas tinham terminado ou estavam em vias de acabar. E tudo indicava que a diferença de meio ponto para a Paraíba se manteria. Ou seja, a responsabilidade pela conquista da medalha caiu no meu colo. Bastaria o empate.

Então, como você jogaria esse posição, caso estivesse com as pretas? As brancas estão com o jogo bem melhor, sem dúvidas.

Como não tinha nenhuma possibilidade de jogo ativo, creio que a melhor opção seria fazer jogadas de espera. Aguardar as ações das brancas. E contar com algum erro, a fim de salvar a partida.

Mas a impaciência, o ímpeto que querer fazer alguma coisa, me fez cometer a última bobagem.

33.... e5 34.Td2 d4 35.Be4 b6 36.Bg6 Te6 37.Be4 bxc5 38.bxc5 Tf6+ 39.Re2 Te8 40.Tb2 Rf7 41.Tb6 a5 42.Ta6...

O restante da partida carece de interesse. Foi só esperneio. Abandonei no 49º lance.

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Partida terminada, fui ao terraço, que era anexo ao salão de jogos, e me pus a olhar, não para belas vistas da capital potiguar, mas para o vazio. Estava a ruminar aquela sofrida derrota e a oportunidade perdida de ficar no pódio de uma competição de nível nacional.

Então, Ives se aproximou e deu um golpe de misericórdia naquele lutador, que já estava cambaleante:

“ - Você viu o tamanho das medalhas?”

Aí, aí, aí... isso não se faz. Elas eram maravilhosas! Tinham o diâmetro de um pires. Fui à lona. Só consegui dizer:

“ - É. Eu também queria uma.”



quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Equipe paraibana classificada para a 2ª fase da Copa do Brasil

A Copa do Brasil é uma competição online, jogada na plataforma Lichess, com 3 fases eliminatórias. A primeira foi disputada nesta terça-feira e contou com a participação de 21 equipes, divididas em 3 grupos. As 3 primeiras colocadas de cada grupo, junto com a melhor 4ª colocada, participarão da segunda etapa.

A equipe paraibana obteve o 3º lugar do grupo 1, numa disputa acirrada com os estados de Minas Gerais e da Bahia. Confira a classificação do grupo no quadro abaixo:

Desta vez, a atuação de destaque ficou por conta de Fagner Lima, com 38 pontos. Confira outros desempenhos individuais abaixo. Lembrando que, apesar de apenas os dez primeiros pontuarem, todos tem importância para a equipe, pois podem tirar pontos dos outros times.

As equipes que disputarão a próxima fase serão as seguintes:



EQUIPE

GRUPO

COLOCAÇÃO NO GRUPO

PONTOS

1

Paraná Team

3

374

2

Team SC Jovens

3

353

3

RIO DE JANEIRO – OFICIAL

2

350

4

Xadrez de Rua – SP

1

337

5

Equipe LBX-RN

3

321

6

EQUIPE TOP BAHIA

1

307

7

Equipe Pernambuco

2

303

8

Clube-Online Xadrez Goiano

2

296

9

Paraibanos Nativos para Batalhas

1

294

10

Elite Cearense (FCX) *

2

285

(*) Melhor quarto lugar.

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Essas 10 equipes disputarão uma batalha classificatória no dia 11/08/2020. Daí sairão as 4 melhores, que jogarão a grande final em 18/08/2020.

Acompanhem!


terça-feira, 4 de agosto de 2020

FEDERAÇÃO CEARENSE DE XADREZ - COMUNICADO

FEDERAÇÃO CEARENSE DE XADREZ    -    COMUNICADO

Caros enxadristas,

Em virtude do prolongamento da situação anormal em que se encontra nosso país, nos sentimos obrigados a cancelar todos os torneios presenciais de âmbito interestadual previstos para esse ano e reprogramá-los para 2021.

Ainda estão em vigor muitas restrições ao livre deslocamento das pessoas, com distanciamentos mínimos exigidos por lei, o que impossibilita a prática do xadrez presencial. 
(Não há como se jogar partidas ao vivo com 1,5m de distância entre os jogadores)  

Além disso, há muitos voos sendo cancelados em cima da hora, o que causaria um transtorno enorme aos participantes de outros estados.

Assim, decidimos realizar um Festival Norte-Nordeste de Xadrez ainda maior, aproveitando o feriado de Tiradentes, entre 17 e 25 de abril de 2021.

A premiação total prevista é de R$ 17.000,00.

Será composto por sete eventos:

Campeonato Regional Nordeste de Xadrez – 2021
Campeonato N-NE Amador 2021 (Cinco categorias)
Campeonato N-NE Sênior 2021 (Duas categorias)
Campeonato N-NE Absoluto Blitz 2021
Campeonato N-NE Duplas Blitz 2021

Palestra com GM convidado

Simultânea com GM convidado
 
*** 

Cronograma:

1 - Campeonato N-NE Sênior 2021
     Suíço em 5 rodadas
     De 17 de abril a 20 de abril de 2021.
    
Categorias:

     +50
     +65
 
Declara o campeão Norte-Nordeste Sênior 50+
Declara o campeão Norte-Nordeste Sênior 65+
Concede o título de Mestre Nacional – MN ao campeão de cada uma das respectivas categorias.
 
2 - Campeonato Regional Nordeste de Xadrez – 2021
Suíço em 7 rodadas
De 17 de abril a 21 de abril de 2021.

Classificará 1 (um) jogador para a fase final do Campeonato Brasileiro Absoluto (intransferível) e 04 (quatro) jogadores para a respectiva Semifinal (com substituição conforme ordem de classificação).  

O Torneio é aberto a todos, que concorrem aos prêmios em efetivo, porém classificará
apenas os jogadores da região Nordeste.

3 - Campeonato N-NE Amador 2021
     Suíço em 6 rodadas
De 21 de abril a 24 de abril de 2021.

Categorias:

          Sub-2200
          Sub-2000
          Sub-1800
          Sub-1600
          Sub-1400
 
Declara o campeão Norte-Nordeste sub 2200
Declara o campeão Norte-Nordeste sub 2000
Declara o campeão Norte-Nordeste sub 1800
Declara o campeão Norte-Nordeste sub 1600
Declara o campeão Norte-Nordeste sub 1400
Concede o título de Mestre Nacional – MN ao campeão de cada uma das respectivas categorias.
 

4 - Campeonato N-NE Absoluto Blitz 2021
22 de abril de 2021.

Declara o campeão Norte-Nordeste Blitz de 2021

 
5 – Palestra com GM convidado
23 de abril de 2021.

 
6 – Simultânea com GM convidado
24 de abril de 2021.

7 - Campeonato N-NE de Duplas Blitz 2021
25 de abril de 2021.

Declara a dupla campeã Norte-Nordeste Blitz de 2021

 

*** 

Todas as inscrições já feitas estão mantidas, mas quem optar pela desistência terá seu pagamento devolvido.

Em breve serão divulgados os folders detalhados dos torneios, incluindo as taxas de inscrição, premiações e as tarifas promocionais de hotéis.

Atenciosamente,

 

Ignacio Barreto – Presidente da Federação Cearense de Xadrez

sábado, 1 de agosto de 2020

O App de Xadrez de Milos para as crianças!

A Federação Paraibana de Xadrez recebeu nesta semana e-mail do GM Gilberto Milos, por meio do qual ele, que é um dos maiores nomes do xadrez nacional, divulga seu projeto de criação do App Chess Alphabet, cujo objetivo é, nos seus dizeres, "incentivar milhares de crianças a ingressarem em nosso querido 'Esporte da Mente'". Para aqueles que desejarem contribuir para que essa ideia prospere, é possível oferecer uma contribuição financeira e, a depender do valor, receber recompensas específicas. O App depois de lançado, será totalmente gratuito. Consulte este link e veja como participar. Desejamos sucesso ao nosso estimado GM, nessa valorosa empreitada!

sexta-feira, 31 de julho de 2020

"Planilhas, por favor!"

Por Joaquim de Deus Filho



Cuba, 1966 – Fischer x Spassky


Vejam que imagem sensacional de grandes ídolos do xadrez. Monstros sagrados que fizeram uma das mais importantes páginas da história do esporte: a famosa e significativa Olimpíada de Cuba , em 1966. Em plena guerra fria. Estados Unidos versus União Soviética.

Mas a fotografia tem outros detalhes que quero compartilhar com vocês. Há tempos pretendo defender uma "tese de doutorado". Isso mesmo! Pois tem cursos por ai de "mestrado e doutorado em Xadrez"... (Como Capivara é metido! Acho que o Nimzowitch deve se revirar no túmulo ao saber disso!).

Bem, como o bom e velho Joca, para quem não sabe, já é mestre, nada como um "doutorado". Vamos à tese: "Todo árbitro é chato!" Pode parecer implicância, “ranzinzice” de velho (5.9 na próxima semana!) , mas a verdade é que o Joca não gosta de árbitros.

Vejam, atentem mais uma vez para a foto em questão: Fischer e Spassky, verdadeiros deuses do Olimpo Caissano, comentam animadamente a mais esperada partida da Olimpíada, no tabuleiro número 1, cercados por feras não menos santificadas. Partida importante, decisiva, dois geniais futuros campeões mundiais!

De repente, mais que de repente, fotógrafos e repórteres se aproximam para tentar imortalizar o momento. Mas eis que chegam os tais "árbitros". Vejam só, como em todo o torneio, eles tomam a frente, interrompem o diálogo, "enchem o saco" (desculpe a linguagem chula, mas não tem sinônimo mais apropriado) querendo as tais "planilhas assinadas". Não esperam o término da análise, uma pressa irritante, constrangedora e desnecessária, em suma, chata! Eu não disse: todo árbitro é chato!

Árbitro é enxadrista que não deu certo. Como gosta do esporte, achou um jeito de continuar ali. 

 " - Chega de apanhar, vou ser árbitro, vou cobrar as planilhas...hahaha".

Árbitro é como goleiro: quando o cara é muito ruim, mandam para o gol! Tudo bem, vão me dizer de um ou dois monstros que são feras e árbitros, mas é a exceção da exceção!

Mas, meus queridos e chatos árbitros (me vem à memória vários de vocês. Estou mentalmente enfileirando-os pelo "rating da chatice!"), vou confessar uma coisa que só essa "bendita quarentena" poderia fazer: estou com saudade de vocês! Verdade, e sou sincero - Caissa seja testemunha -, não vejo a hora de terminar uma partida e comentando-a animadamente, receber sua delicada, bem-vinda e prazerosa presença: "planilhas, por favor!"


terça-feira, 28 de julho de 2020

Paraíba campeã do Nordestão Bullet!

Não tem para ninguém no xadrez online! A Paraíba conquistou mais uma batalha por equipes. Desta vez, foi o Nordestão Bullet 2+0.

Contando com as duas vitórias no Nordestão Blitz, essa foi a terceira vitória consecutiva do estado em competições online.

O evento foi realizada nesta terça-feira, na plataforma Lichess, e teve a participação dos nove estados da região.

Mas não pensem que foi uma vitória tranquila. Muito pelo contrário! A competição ficou indefinida até o último minuto, com três equipes disputando, ponto-a-ponto, a liderança do torneio: Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia.

Confira abaixo o quadro geral da classificação:



Esse é um evento aberto a nativos e residentes de cada estado. A equipe da Paraíba contou com 27 jogadores. Apesar de apenas os dez primeiros pontuarem, todos tem importância para a equipe, pois podem tirar pontos dos outros times.

Veja como foi o desempenho de cada um. Destaque para Rafaell Montenegro, o maior pontuador da equipe.




sexta-feira, 24 de julho de 2020

O Voo do Capivara – “Data venia, Mestre Vescovi!”

Hoje, os ventos sopram de terras potiguares. E não é um ventinho qualquer, não! Se o caboclo não se garantir, vai ao chão. É assim que retrato o nosso convidado. Um jogador agressivo, com grande aptidão para a tática.

Para confirmar essa afirmação, transcrevo o comentário que o leitor Luiz A. Xavier fez numa matéria publicada pelo blog do Núcleo Enxadrístico de Macaíba: “Bob, o perigoso. Brinque não, que ele come você com farinha”. A expressão “comer com farinha”, se você não sabe, significa, nesse caso, ganhar “facinho, facinho”.

Esse é o nosso convidado: Bob Andrade, como os mais íntimos chamam o MF Roberto Luís da Costa Andrade.

Roberto tem uma longa militância no xadrez, com episódios de pioneirismo, como o que será relatado em seguida.

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Conta-nos Roberto que, na década de 1990, só havia um jogador no Nordeste com rating FIDE. Isso se devia ao pouco intercâmbio de jogadores, em face da carência de torneios na região. Era quase impossível ser ranqueado.

Porém, em maio de 1994, foram realizados dois torneios internacionais consecutivos em Fortaleza/CE: I e II Circuito do Sol. No primeiro torneio, com nove rodadas, ele conseguiu enfrentar sete jogadores com rating FIDE; e no segundo, jogou contra mais quatro.

Dentre seus adversários, constavam nomes como os do GM Rafael Leitão, do argentino MI Diego Adlas - campeão mundial de jovens -, do MI Cícero Braga, MI Jeferson Pelikian e os argentinos MI Del Rey e Giardelli, que foi o campeão do evento.

Dessa forma, obteve o tão desejado ranqueamento, com uma performance Elo de 2315! Porém, no mesmo mês, ele jogou outro torneio no Rio Grande de Sul, no qual não conseguiu repetir o mesmo desempenho, e, assim, formou um rating de 2285. O título de Mestre Fide foi conquistado algum tempo depois.

Por conta disso, foi convidado pela Federação Norteriograndense de Xadrez para participar de torneios fechados, juntamente com um mestre de São Paulo, que morava em Natal. Tais eventos dariam oportunidade para outros jogadores também formarem rating. Com esse trabalho, o Rio Grande do Norte passou a ser o segundo estado do Brasil com o maior número de jogadores ranqueados na FIDE, superado apenas por São Paulo.

Aquele esforço inicial, somado ao desprendimento de mais alguns jogadores, surtiu efeito. Assim, o estado potiguar se tornou um polo no Nordeste e contribuiu para a formação de rating dos jogadores da região, além dos de muitos outros estados do Brasil, tais como o Rio Grande do Sul e o Amazonas.

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Mestre Roberto também tem um histórico de vários enfrentamentos com GMs e MIs, com diversos resultados positivos e algumas “bolas na trave”. Já encarou até o campeão mundial, Magnus Carlsen!

Mas, no Continental de 2003, em Buenos Aires, o “Swiss-Manager” exagerou. Ele foi emparceirado contra quatro Grandes Mestres, isso nas primeiras quatro rodadas! Foram eles: Igor Novikov, Alexader Wojtkiewcz, Gildardo Garcia e Gregory Kaydanov, consecutivamente.

A partida que ele nos presenteou foi jogada contra o GM Igor Novikov, da Ucrânia, logo na primeira rodada daquele Continental. Na planilha, Roberto registrou o rating de seu adversário: 2598!


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MF Roberto Andrade x GM Igor Novikov

Buenos Aires – 17/08/2003

Segue o link da partida.

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=DY9d7StlZ4e+g71QwYwsCpFjc7PnLAKtH6EquqREeYK1VAaCsL86D5tA6Z3cYl6G

1.e4 c5   2.Cf3 d6   3.d4 cxd4   4.Cd4 Cf6   5.Cc3 a6   6.Bg5 e6  7.f4 Db6  8.Dd2 Db2  9.Tb1 Da3 10.f5 Cc6  11.fxe6 fxe6  12.Cc6 bxc6  13.Be2 Be7   14.0-0 Da5

A dama foi lá em b2, beliscou um peão e, agora, retornará a seu posto em “d8” para engrossar as fileiras de suas defesas. Atualmente, o mais jogado é 14.... 0-0, mas que pode resultar em uma linha de empate com 15.Tb3 Dc5+ 16.Be3 De5 17.Bd4 Da5 18.Bb6 De5, etc.

15.Rh1 Dd8  16.Bf3 0-0  17.e5 dxe5  18.Bc6

Dr. Fritz observou que 18.De2 teria sido melhor. Por exemplo: 18.De2 Dc7 19.Bh4 Cd5 20.Be7 Ce7 21.Be4, com ideia de Ca4 e Cc5, com compensações pelo material.

18.... Ta7

As pretas também poderiam ter trocado as damas. Exemplo: 18.... Dd2 19.Bd2 Ta7 20.Ba4 Cd7 21.Tf8 Bf8, com o jogo um pouco melhor.

19.De1 Dd6   20.Be4 Tc7   21.Bf6 Tf6   22.Tf3

Uma imprecisão que poderia ter dado vantagem às pretas. Com 22.Tf6 Bf6 23.Bd3 Bb7 24.Ce4, a igualdade seria mantida.

Outra opção, porém mais complexa, era 22.Tf6 gxf6 23.Td1 Dc5 24.Ca4 Dc4 25.Cb2 Dc3 26.Bh7+.

22.... Tf3   23.gxf3 Tc4

Início de uma manobra para pressionar a ala do rei. Mas 23.... Da3 24.Tb3 Da5 25.De3 g6 26.Rg2 Rg7, deixando as brancas sem boas opções de jogo, teria sido mais efetivo.

24.Bd3 Tf4  25.Ce4 Dc6

Era essa a posição que as pretas almejavam, quando transferiram a torre para a ala do rei? Dr. Fritz está dizendo que ela está igualada. Mas o diz sem oferecer quaisquer explicações. Então, me deem licença para tentar interpretar essa afirmativa.

A dama ocupou a grande diagonal, mirando o ponto “f3” e, em última instância, o rei branco. Mas esbarram na casa “e4”, solidamente defendida, e, ademais, “f3” é facilmente defensável. Então, esse lance não teve qualquer efetividade. Por outro lado, a própria dama ficou sujeita a eventuais ataques em “b6”, deixou a casa “a7” sujeita a invasões e bloqueou a ação do bispo de casas brancas.

A posição da torre preta em “f4” é outro detalhe importante. Ela está afastada da própria ala da dama, o que deixa as brancas com boas possibilidades de jogo nesse setor.

É isso? Concordam?

Teria sido um pouco melhor 25.... Dc7, pelos motivos expostos.

26.De3 Tf8  27.Rg2 Td8

As pretas reconheceram a inutilidade da torre em “f4”.

28.Da7 Td7  29.Db8 Rf7  30.De5 Td5

As pretas tinham uma possibilidade tática interessante: 30.... Td3 31.Df4+ Bf6 32.cxd3 Dc2+ 33.Cd2 g5, porém, depois de 34.De3 Bc3 35.Tb8 Bd2 36.Tc8 Dc8 37.Dd2, o resultado mais provável teria sido o empate.

31.Db8 Td8  32.De5

Uma proposta de empate por repetição de jogadas? Roberto disse que não. Que só estava ganhando algum tempo.

32.... Rg8   33.Tb8 Tf8   34.Dh5 Tf5?

Veja essas linhas: 34.... Dc7 35.Cg3 g6 36.Bg6 hxg6 37.Dg6+ ou 34.... Dd5 35.Cf6+ Bf6 36.Bh7+ Rh8 37.Bf5+. Ambas levariam ao empate.

Apesar da igualdade, a posição oferecia alguns riscos às pretas. Novikov não se deu conta, e levou um golpe tático devastador.

35.Cf6+! Tf6

Ou 35.... Bf6 36.Bf5 g6 (se 36.... gxf5 37.Df5) 37.Be4, com vantagem decisiva. Por exemplo: 37....  Dc7  38.Bg6  hxg6  39.Dg6+, etc.

36.Bh7+ Rf8   37.Be4 De8   38.Tc8 Bd8

Quando vi essa posição, corri para o “zap”.

“ - Mestre, você considerou 39.Dh8+? Era ganhador!”.

“ - Eu vi essa alternativa. Escolher o melhor lance, nem sempre é fácil. Às vezes, começamos a ver fantasmas no tabuleiro!” Respondeu.

Eu que o diga, Mestre. Essas assombrações vivem a me atormentar.

Depois de 39.Dh8+ Re7 40.Dg7+, as brancas teriam inúmeras possibilidades de ganho. Claro que não daria para calcular todas as variantes, principalmente quando se está apurado no tempo, mas a frágil situação do rei preto já justificaria tal escolha.

Veja possíveis linhas.

a) 40.... Tf7 41.Dg5+ Tf6 42.Dc5+ Rf7 43.Dd4 Re7 44.Ta8, e as pretas estão em zug.

b) 40.... Df7 41.Dg5 e5 42.Tb8 Bc7 43.Th8 De6 44.Th7+, com outro zug.

39.Dc5+ Rg8  40.Dd6

Em que pese não ter sido o melhor lance, 39.Dc5+ ainda manteve uma vantagem relevante. Com 40.Ta8 Tf8 41.Ta6, as brancas teriam superioridade material e posicional. Mas Roberto não encontrou o melhor caminho, motivo pelo qual sua vantagem foi se diluindo.

40.... Tf8  41.Da6

Esse lance dá liberdade à dama preta. Melhor teria sido 41.Tc6. Agora, a posição oferece boas possibilidades de defesa.

41.... Dd7  42.Bd3 Dd5  43.Dc6 Dg5+   44.Rf2

Um erro, ou Roberto desistiu da vitória? Com 44.Rf1, as brancas ainda poderiam jogar para vencer, em que pesem as dificuldades.

44.... Dd2+  45.Rg3 Df4+   46.Rg2 Dd2+   47.Rg3 Df4+   48.Rg2 Dd2+  49.Rg3   Empate

*******

No final, o GM Geovani Vescovi analisou a partida, deu os parabéns a Roberto e falou:

“ - Você empatou com um jogador de 2600 de rating.”

Como leal advogado dos meus convidados, respondo:

- Data venia, Mestre Vescovi. Ele empatou, mas mereceu ganhar!”.



quinta-feira, 23 de julho de 2020

Rodrigo Wanderley vence o Campeonato Paraibano Online 3+2!

Com uma atuação impecável (10,5 pontos em 11 disputados), Rodrigo Wanderley venceu a última etapa do circuito e conquistou, em grande estilo, o Campeonato Paraibano Online 3+2!

O campeão Rodrigo Wanderley

Fagner Lima, com 8,5 pontos, e Alexandre Machado, com 8, completaram o pódio desta rodada. Os outros concorrentes diretos ao título não conseguiram, desta vez, emplacar o seu melhor do jogo.

Confira o resultado geral da rodada no link abaixo:

https://lichess.org/swiss/j2AzMElc

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Parabéns ao campeão e aos demais premiados. Congratulações a todos os participantes pelo engajamento. O evento mobilizou enxadristas de todos os rincões do estado!

Registre-se, também, o reconhecimento ao excelente trabalho do MN Evandro Silva na condução da competição.

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Veja os resultados finais de cada premiação.

Classificação Geral

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

Rodrigo Wanderley

Nick - Rmwanderley

2327

8,5

9

7,5

10,5

35,5

2º/3º

Sérgio Farias

Nick - CM fariasov

2262

8,5

7,5

9,5

7

32,5

2º/3º

Rondinelle Pessoa

Nick - RondinelleParaiba

2250

9

8

8

7,5

32,5

Renato Oliveira

Nick - renatochess

2219

7,5

7,5

8

7,5

30,5

Fagner Lima

Nick - FSLima

2151

8

7

6

8,5

29,5

Obs.: Sérgio e Rondinelle resolveram, de comum acordo, não disputar o match de desempate. A premiação será dividida entre os dois.


Melhor Sênior

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

Marcello Urquiza

Nick-marcellourquiza

2258

7

8

6,5

7,5

29


Melhor Feminino

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

24º

Sara Soares Medeiros

Nick-Sara_medeiros

1866

5,5

5

6,5

6,5

23,5


Rating - Melhor até 2000

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

João Tejo

Nick – JoaoTejo

1939

6

6,5

7

6,5

26

Obs.: Todos os jogadores com rating igual ou inferior a 2000 estavam concorrendo ao prêmio.


Rating – Melhor até 1800

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

18º

Antonio Dutra

Nick-dutrachess10

1674

5

5

7

6,5

23,5

Obs.: Todos os jogadores com rating igual ou inferior a 1800 estavam concorrendo ao prêmio.


Rating – Melhor até 1700

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

35º

Davi Ramos

Nick-daviramos

1661

5

5

5

5

20

Obs.: Todos os jogadores com rating igual ou inferior a 1700 estavam concorrendo ao prêmio.


Rating – Melhor até 1600

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

42º

Gelson Teixeira

Nick – gelsonteixeira

1457

3,5

5

4,5

4,5

17,5

Obs.: Todos os jogadores com rating igual ou inferior a 1600 estavam concorrendo ao prêmio.


Rating – Melhor até 1500

Posição

Nome

Rating

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

Total

44º

Isaac Soares

Nick – MATApixote

1467

5

5

3,5

3,5

17

45º

Valdemiza

Nick – Valdemiza

1411

5

4

4

4

17

Obs.: Conforme o regulamento, o desempate será decidido através de um match de 02 partidas. Todos os jogadores com rating igual ou inferior a 1500 estavam concorrendo ao prêmio.



quinta-feira, 16 de julho de 2020

Nova reviravolta no Campeonato Paraibano Online 3+2!

Como resultado da 3ª etapa do Campeonato Paraibano, a liderança geral sofreu mais uma mudança. A terceira consecutiva! Isso demonstra o equilíbrio da competição, a qual será decidida na última rodada. Quatro jogadores estão na disputa direta pelo título. Outros, com chances menores, correm por fora.

Com o excelente desempenho de 9,5 pontos, em 11 jogados, o CM Sérgio Farias foi o vencedor nessa quarta-feira e, com isso, também obteve a liderança provisória do circuito. Rondinelle Pessoa, Renato Oliveira e Doriedson Lemos, com 8 pontos, foram seus principais concorrentes.

Você pode conferir o resultado geral da rodada de ontem no link abaixo:

https://lichess.org/swiss/DHXdOLOb

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Veja as tabelas parciais de cada premiação em disputa.









Obs.: Em caso de 02 jogadores terminarem empatados, o desempate será realizado através de match de 02 partidas. Ainda não foi definido o critério, no caso de múltiplos empates.

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Como nota negativa, a plataforma Lichess detectou que um dos participantes da competição utilizou a ajuda de programa de computador. O jogador acusado já apresentou sua contestação e aguarda a decisão da plataforma.

Conforme estabelecido no regulamento, os jogadores que perderam suas partidas tiveram seus pontos restituídos.


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Desventuras de um Capivara – Morrendo na praia

O voo do capivara não é muito frequente. Ao contrário e , tal qual a vaca, o mais comum é ele ir para o brejo. Então, voltemos às desventuras.
Esse negócio de morrer na praia é cruel! A pessoa nada desesperadamente para alcançar a terra firme e, quando chega, tem um "piripaque" e morre. Triste. Isso acontece muito em finais de partidas. Depois de uma luta intensa, já prestes a alcançar o objetivo, damos aquela "capivarada" que nos faz perder a partida ou deixar escapar uma vitória certa. É bem frustrante, como você deve saber. 
O principal motivo desses erros é a carência técnica. Por isso, a importância de estudar essa fase do jogo. Mas outros fatores podem influenciar, tais como o apuro de tempo e o psicológico. 
Tenho dois exemplos para mostrar.
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O primeiro ocorreu na partida jogada contra o mestre alagoano, Jonathas Magalhães, no Nordestão 2019, em Recife. 
Na última rodada, ela era a única ainda em andamento. Já não tínhamos muitas ambições na competição, mas o espírito de luta estava presente. Jonathas buscando a vitória, pois tinha vantagem; e eu, tentando o empate. 
Ademais disso, o jogo tinha um ingrediente que mobilizou a atenção dos demais jogadores: o resultado dele definiria o campeão do torneio. O MF Diogo Guimarães, da Bahia, e o MF Luismar Brito, da Paraíba, estavam empatados com 5,5 pontos, cada. O empate daria o título a Diogo. A vitória de Jonathas beneficiaria Luismar. 
A foto abaixo, do MN Joaquim de Deus, demonstra o interesse que a partida despertou.


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Mas, deixemos de lero-lero, e vamos ao que interessa. Perdi uma qualidade no início do jogo, porém obtive alguma iniciativa, a qual me fez alcançar a posição do diagrama abaixo. 


Observem que o rei branco não pode jogar, pois precisa defender o peão de “b3”, e a torre, por si só, não consegue se opor ao domínio central que as peças pretas exercem. Jonathas até tentou manobrá-la, mas não obteve resultado. Acompanhem.
Atenção! Atendendo sugestão do Mestre Arthur Olinto, a partir dessa edição, disponibilizaremos "links" para que  as partidas possam ser vistas através do celular ou computador.
60.Th8 Re3 61.Td8 Re2 62.Td5 Re3 63.Td3 Re2 64.Th3 Cd6 65.Th5 Ce4 66.Th3 Cd6 67.Th4 Re3 68.Th5 Ce4 69.Te5 Rd4 70.Te8 Re3 71.Te7 Rd4 72.Td7 Re3 73.Td1 Re2 74.Td3 Cf2
“E tudo como dantes no quartel de Abrantes”, pensei. Se 75.Td2 Re3, e nada mudaria. Joguei Cf2, como poderia ter jogado Cf6 ou Cg5, que não faria diferença, no meu entender.
Mas, percebendo que a partida estava se encaminhando para o empate, Jonathas tentou uma última cartada. Ele deve ter pensado: “Ego revolvet eam”(*).
75.Td2 Re3 76.Tf2
Esse lance caiu como uma bomba para mim. Não o tinha considerado, e, naquele momento, só conseguia ver que, após Rd3, as brancas ganhariam. Meu estado de espírito estava abalado e, para completar, aquela capivara falou ao pé do meu ouvido: “Perdeu, cara! Perdeu”. Continuou.
76.... Rf2 77.Rd2
“Oi? Por que ele não jogou Rd3 direto? Aí tem coisa!”, estranhei. Mas, antes que eu pudesse aprofundar a investigação sobre as razões desse lance, a capivara interveio e, num complô maquiavélico com meu psicológico abatido, repetiu aquela ladainha: “Perdeu! Perdeu! Tem jeito não”. Ah, capivara! Ainda ei de te exorcizar. 

Como desafio, proponho que responda as seguintes questões:
1- Por que as brancas jogaram Rd2, ao invés de Rd3?
2- A partida estava mesmo perdida para as pretas?
Continuou.
77.... Rf3 78.Rd3 Rf4 79.Rc4 Re5 80.Rc5 Re6 81.Rb4 Rd6 82.Rb5 Rc7 83.Ra6 Rb8 84.b4 Ra8 85.b5 Pretas abandonam
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Vamos ao segundo exemplo. Foi no Floripa Chess Open 2020. Enfrentei o fortíssimo Eduardo Silvio, jogador com 2300 de rating na época. Estranhei porque ele não possuía o título de MF. Respondeu que esteve afastado do xadrez, e que não o tinha reivindicado. 
Após um jogo impreciso do meu adversário, e de muita paciência de minha parte, chegamos à posição do diagrama. Jogam as brancas. 
Mais um desafio: 
3- Como as brancas devem jogar para ganhar?
Uma dica: eu tinha acabado de ler o livro “Los 100 finales que hay que saber”, de Jesús de la Villa. No capítulo de finais de peões, ele apresenta uma manobra típica, que também se aplica a esse caso. Porém, como não cheguei a internalizar esse conhecimento, teria de descobrir a solução no tabuleiro. Mas, com pouco tempo para pensar, e já impaciente, meio que renunciei à vitória. Joguei:
61.Tg8 Th7 62.Tg7 Th4 63.Tf7 Rc6 64.Tg7 Tf4 65. Empate
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Respostas dos desafios.
1- Qual foi a razão da jogada Rd2? As pretas possuíam uma rota alternativa para seu rei. Vejam: se 77.Rd3, então 77.... Re1 78.Rc4 Rd2 79.Rc5 Rc3, e as pretas ganhariam. 
2- A partida ficou perdida depois de Rd2? Não. Bastaria manter a casa “e1” ao alcance do rei. Portanto, 77.... Rf1!. As brancas seriam obrigadas a jogar 78.Rd1, e a partida estaria empatada. 
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3- Como ganhar nessa posição? Deem mais uma vista no diagrama. 
Vejam que o rei preto não pode sair da 7ª fila, sob pena de levar um xeque. A torre, por sua vez, tem de ficar na coluna “h”, que é para manter o peão de “h7” sob vigilância. 
Então, para ganhar, o rei branco precisaria apoiar a sua torre. E como passar pelo bloqueio imposto pela torre preta? Esse é o “X” da questão. 
Notem que, se a vez de jogar fosse das negras, elas teriam de deslocar sua torre, abrindo o caminho para o rei branco. Eis a solução: ceder a vez de jogar para o segundo jogador! É quando entra a triangulação, manobra típica em finais de peões. Vejam:
61.Rg2 Th6 62.Rf3 (ameaçando Rg4) 62.... Th4 63.Rg3 (Pronto! Agora as pretas teriam de jogar.) 63.... Th1 64.Rg4 Th2 (64.... Tg1 seria a mesma coisa) 65.Rg5 Th1 66.Tg8 Th7 67.Tg7 Th1 68.Tf7 Rc6 69.Te7 e o rei branco iria a f8, ganhando através da posição de Lucena.
Mas, e se 62.... Tf6, ao invés de Th4? Então, 63.Rg4 Th6 64.Rg5 Th1 65.Rf6 Tf1 66.Rg7 Tg1 67.Rf7 Tf1 68.Rg6 Tg1 69.Rf5 Tf1 70.Rg4 Tg1 71.Rf3 Th1 72.Ta7, ganhando.
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(*) Nota do tradutor - “Ego revolvet eam”. Do Latim, “vou enrolá-lo”.