sábado, 20 de maio de 2017

Aprendendo com Dvoretsky - II

Por FERNANDO MELO

Antes de começar a análise do que aconteceu durante a partida Tal - Korchnoi, Camp. URSS 1958, vamos dar uma examinada no diagrama ao lado.

Vejam que a Dama branca está em f3. Na verdade a posição da partida coloca a Dama em f4 e o peão da coluna "h" está em h6. Este foi o lance 33 feito por Tal, ou seja 33.h6+ e não 33.Df3.
Agora vamos ao que nos fala Mark Dvoretsky.

"Tal levou a cabo uma combinação errada com o tema da promoção do peão: 33.h6+ Th6 34.Dh6+ Rh6 35.g7. Depois da inesperada 35. ...Dg3+! as brancas abandonam. Portanto, era necessário 33.Df3! forçando o empate com a ameaça 34,Db7+. A 33, ...Dd5 é possível tanto 34,Df4=, como 34.Dd5+". 

A biblioteca de Bobby Fischer!

Por FERNANDO MELO
Bobby na casa de Collins na década de 50.


"Bobby provavelmente leu mais do que "ler", mas sim mastigado e digerido - mais livros e revistas de xadrez do que qualquer outra pessoas. Não era tarefa. Foi um prazer e fez dele o jogador mais experiente da historia. Cinco a dez horas por dia de leitura e estudo foram a regra, não a exceção." - Jack Collins.

Bobby aprendeu a jogar em março 1949 ( 6 anos) e logo estava lendo seu primeiro livro de xadrez, possivelmente The Games of Chess de Siegbert Tarrasch. Este foi o início de um amor ao longo da vida de literatura de xadrez que foi para servi-lo bem.

A primeira fonte de Fischer para livros de xadrez foi a Biblioteca Pública de Brooklyn, cuja coleção ele rapidamente esgotou. Felizmente por esta altura ele tinha feito amizade com Jack Collins, o fundador do lendário Hawthorne Chess Club, que se tornaria a segunda casa de Bobby. Collins tinha uma extensa biblioteca e introduziu Bobby para grande jogadores do passado, incluindo Wilhelm Steinitz e Adolf Anderssen. Os dois passaram muitas horas passando por The International Chess Magazine de Steinitz e o trabalho de Herman von Gottschall sobre Adolf Anderssen. Sua influência sobre Bobby Fischer pode ser vista em seu hábito de transformar "a peça de museu" aberturas em armas perigosas com Steinitz 9.Ch3 nos Dois Cavalos um dos exemplos mais conhecidos. Esta linha, violando a bem conhecida máxima "um cavalo na borda é fraco"

Bobby começou a construir sua biblioteca no início de sua carreira e no final dos anos 1950 ele possuía perto de cem livros e várias centenas de revistas. Sua coleção continuou a crescer até que em 1968, tendo se mudar para Los Angeles, viu-se forçado a vender parte de sua biblioteca. Uma vez estabelecido em sua nova casa Fischer começou a adquirir mais livros de xadrez com seriedade. Ron Gross, que se tornara amigo de Fischer no Campeonato Americano de Xadrez Junior de 1955 e permaneceria perto dele por quase 30 anos, lembra-se de visitar seu apartamento em 1970 e encontrar montes de livros e revistas espalhados por toda parte, com apenas um caminho estreito que permite passagem pela sala de estar."

Fica assim portanto registrado um pouco dessa particularidade na vida de Bobby Fischer, esta sua paixão incontrolável pela literatura de xadrez.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Bobby desmonta a Najdorf!

Por FERNANDO MELO

Tem coisas que não faço mas que deveria fazer, mas insisto em não fazer. Uma delas é jogar a Defesa Siciliana.  No passado eu costumava jogar a Francesa e de tanto perder terminei desistindo. Depois veio a Pirc e ela foi ficando, ficando, e continua até hoje. Sei que Bobby Fischer gosta muito da Siciliana, tanto de negras  como de brancas. Uma de suas partidas mais famosas é quando ele enfrentou o criador da Variante Najdorf, isso mesmo , próprio Miguel Najdorf o embate histórico entre o criador e a criatura, 

Esse é um tema que os poetas gostam muito de se inspirar. Vejamos o que diz Cora Coralina: "Melhor do que a criatura, fez o criador a criação. A criatura é limitada. O tempo, o espaço. normas e costumes. Erros e acertos. A criação é ilimitada. Excede o tempo e o meio. Projeta-se no cosmos."

No xadrez, a verdade de Cora Coralina é contrariada na partida que vamos ver abaixo, jogada na Olimpíada de Varna 1962, entre  Bobby Fischer e Miguel Najdorf.

Fischer - Najdorf

Siciliana - Var. Najdorf


1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cd 4.Cd4 Cf6 5.Cc3 a6 6.h3 b5 7.Cd5 Bb7 8.Cf6 gf 9.c4 bc 10.Bc4 Be4 11.0-0 d5 12.Te1 (Veja diagrama) e5 13.Da4+ Cd7 14.Te4 de 15.Cf5 Bc5 16.Cg7+ Re7 17.Cf5+ Re8 18.Be3 Be3 19.f3 Db6 20.Td1 Ta7 21.Td6 Dd8 22.Db3 Dc7 23.Bf7+ Rd8 24.Be6 e as negras abandonam. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Clube Miramar homenageia Najdorf

Por FERNANDO MELO

Miguel Najdorf o mais amado entre os jogadores

Será realizado na tarde do próximo dia 27 (sábado), a partir das 14 horas, no Clube de Xadrez Miramar, o Torneio Ativo Memorial Miguel Najdorf, com 15 minutos nocaute e em 6 rodadas. As inscrições estão abertas com o diretor MF Francisco Cavalcanti, sendo que sócios pagam 20 reais e não sócios 30 reais. O campeão receberá o Troféu Najdorf e o vice e terceiro lugar, medalhas.


Esse torneio terá uma particularidade. Na primeira rodada, todas as mesas estarão armadas com a variante Najdorf (1.e4 c5, 2.Cf3 d6 3.d4 cd 4.Cd4 Cf6 5.Cc3 a6), levando assim os participantes a jogarem essa defesa.

Bobby Fischer x Miguel Najdorf

Considerado o jogador mais amado do mundo, Najdorf é uma verdadeira lenda do xadrez. Polonês de nascimento e naturalizado argentino, é bem conhecido por ser o criador da Variante Najdorf, da Defesa Siciliana. Bobby Fischer costumava jogar essa linha e tem um momento histórico, na Olimpíada de Varna 1962, quando os dois se enfrentaram e jogaram a citada variante. 

De olho no peão!

Por FERNANDO MELO

Joguei ontem uma partida amistosa de 30 minutos com o mestre Genildo Gomes, treinando com ele para o torneio de Recife, em julho próximo, quando serão homenageados os saudosos Dr. Luiz Tavares e Eduardo Asfora, numa iniciativa feliz do MF Marco Asfora.

Para responder ao 1.e4, joguei a Pirc, mas com uma preocupação: como evitar aquele ataque branco na casa h6? Como era treino, evitei rocar na abertura, contrariando minha rotina. Genildo também não rocou e o meu plano de jogo foi focado no centro, sem evidentemente desprezar as duas alas. Percebi que Genildo focava sua atenção na ala da dama. De repente me ocorreu tentar ganhar o peão branco de e4, defendido pelo cavalo em c3. 

Parto do princípio de que devemos jogar com um plano, mesmo que seja débil, mas que seja um plano. Você joga com mais vontade, de forma mais prazerosa. O fato é que fiquei de olho no citado peão. E disse comigo mesmo: vou ganhar esse danado! E não é que ganhei!

Não vou mostrar a partida toda, apenas o suficiente para justificar tudo o que disse acima. Foi assim:

Genildo x Melo
Defesa Pirc

1.e4 d6 2.Cf3 Cf6 3.Cc3 g6 4.Be2 Bg7 5.d4 c6 6.Bf4 Ch5 7.Bg5 h6 8.Be3 Cf6 

Foi a partir daí que fiquei de olho no tal e4! Xadrez, até mesmo por também ser um jogo (defendo que seja mais arte), é preciso um pouco de sorte. Imagino que meu adversário não estava percebendo meu olhar faceiro para o dito cujo, ou se estava não deu muita importância, já que o tal peão estava bem defendido pelo cavalo de c3, o que é verdade. Eu tinha a tarefa hercúlea de desviar esse maldito cavalo, transformá-lo num fragilizado Rocinante, com perdão do meu amigo Don Quixote.

9.h3 b5 10.a3 Da5

Vejam que estou cercando o cavalo e, pelo menos na minha visão, estava indo muito bem até que o jogo ficou fixado na ala da dama, no que terminou ajudando no meu intento.

11.b4 Dc7 12.Dd2 a5 13.Ta2?

Respirei fundo, e disse comigo mesmo: obrigado Bobby Fischer. Tem sido assim, quando algo acontece de bom, agradeço ao mestre Fischer, sempre! Quando acontece de ruim, o que tem sido mais comum, reclamo dele e ele faz ouvido de mercador, quando muito me manda estudar mais. É assim que ele me trata!     
O último lance das brancas me dá a vitória. O resultado final da partida não interessa, o que interessa era ganhar o peão de e4! 

13. ...ab 14.ab Ta2 15.Ca2 , desviando o sofrido Rocinante e deixando o peão ao meu dispor. Claro que joguei 15. ... Ce4!
Marcamos outros encontros, antes de julho chegar.

domingo, 14 de maio de 2017

Remígio no reino do xadrez!

Joaquim Virgolino e Melchior Batista, Prefeito de Remígio:
A cidade terá Torneio de Xadrez!

Ali, pertinho de Esperança, terra de Joaquim Virgolino, está Remígio, cidade do brejo paraibano que acaba de anunciar um grande evento de xadrez, despontando assim como mais um centro de relevância na prática da modalidade em nosso Estado. A iniciativa tem no Prefeito Municipal, Melchior Batista, seu maior responsável. Ele esteve presente no Torneio de Esperança, como vemos nas fotos, e, demonstrando ser um entusiasta do nobre jogo, logo se mostrou disposto a também levar para sua cidade um evento de xadrez de mesma magnitude.
As tratativas avançaram e, segundo nos informou Joaquim, o Prefeito "bateu o martelo"! O I Torneio de Xadrez Cidade de Remígio vai acontecer no dia 06 de agosto, no ritmo de de 20' KO, em 6 rodadas, com prêmios de R$ 1.600,00, distribuídos segundo o folder abaixo. Em breve traremos mais informações sobre a forma e o valor de inscrição.

Portanto, vamos todos nos programar para participarmos e prestigiarmos esse novo centro do xadrez paraibano. Bem-vindo, Remígio, ao encantado mundo do reino de Caíssa!

O convite de Asfora!

Por FERNANDO MELO



O meu velho amigo MF Marco Asfora, decano do xadrez pernambucano, me ligou ontem e fez um convite. Como sabemos, de 7 a 9 de julho, teremos em Recife o I Memorial Luiz Tavares / Eduardo Asfora, conforme mostra o cartaz ao lado. Asfora sabe do meu carinho pelo saudoso Dr. Luiz Tavares. Meu livro O Escudeiro de Caissa é dedicado a ele e diz assim:

À memória de Dr. Luís Tavares da Silva (1916-1995). Com ele aprendi a compreender o verdadeiro valor de Bobby Fischer e, como se não bastasse, me deu a conhecer a Abertura Bird! Um marco na cirurgia cardíaca e no ensino universitário de Pernambuco, ex-presidente da Confederação Brasileira de Xadrez, campeão brasileiro em 1957, e grande protetor e incentivador do GM Henrique Mecking. 

Bem, o convite de Asfora é para que eu apresente na abertura oficial do torneio, por meio de um discurso, os ilustres homenageados. Não só aceitei, como fiquei feliz por essa oportunidade de externar o quanto eleva meu espírito homenagear o meu eterno mestre Dr. Luiz Tavares e Eduardo Asfora!   
  

O legado de Steinitz!

Por FERNANDO MELO

A história do xadrez, em toda sua plenitude, coloca Wilhelm Steinitz no lugar de honra. Aprendi com Bobby Fischer a respeitar esse que foi o primeiro campeão do mundo! Hoje, 14 de maio, é comemorado o aniversário do seu nascimento e o legado deixado por ele é muito rico.

Pesquisando no Chessgames encontro informações valiosas a respeito de Steinitz. A extensão do seu domínio no xadrez mundial é evidente pelo fato de que, a partir de 1866, quando ele derrotou Adolf Anderssen, até 1894, quando renunciou à coroa mundial para Emanuel Lasker, venceu todos os seus jogos.

Mas vejamos um pouco
o que dizem dele, ao longo do tempo:

Steinitz era um pensador digno de um assento nos salões de uma universidade. Um jogador, como o mundo acredita que era, ele não era. Seu temperamento estudioso tornava isso impossível. E assim ele foi conquistado por um jogador e no final pouco valorizado, ele morreu. - Emanuel Lasker 


Steinitz foi o primeiro a estabelecer os princípio básicos da estratégia geral do xadrez. Ele foi um pioneiro e um dos pesquisadores mais profundos na verdade no jogo, que foi escondido de seus contemporâneos. José Raul Capablanca


Ele foi sem dúvida um gênio no xadrez, um dos maiores que já viveu. E o que eu mais respeito nele, é que ele classificou o xadrez como uma arte. A luta com ele me forçou tantos minutos de intenso prazer, quanto períodos de desânimo. Miguel Chigorin


Steinitz estava sempre procurando alguma linha completamente original. Ele entendeu mais sobre o uso de quadrado do que fez Morphy, e contribuiu muito mais para a teoria do xadrez. Ele é chamado  de pai da moderna escola de xadrez. Antes dele o Rei era considerado uma peça fraca e os jogadores começaram a atacar o Rei diretamente. Steinitz afirmou que o Rei era bem capaz de cuidar de si mesmo, e não devia ser atacado até que alguém tivesse alguma outra vantagem posicional. Ele sempre procurou linhas completamente originais e não se importava de entrar em aposentos apertados se ele achava que sua posição era  essencialmente sólida. Bobby Fischer




sábado, 13 de maio de 2017

Livros sobre Bobby Fischer

Por FERNANDO MELO

De grão e grão ... minhas pesquisas são sementes que crescem e dão bons frutos. Uma delas é sobre o blog Xadrez Memória, de Arlindo Rodrigues Vieira. E assim encontro o Bibliofischermania, que informa sobre diversos livros escritos sobre Bobby Fischer.

Todas las partidas de Fischer - É a tradução espanhola do inglês - The Games of Bobby Fischer da Bastford. "Esta versão é uma raridade e tenho certeza que poderia ir claraente aos 150, 200 Euros. Não sei se tem todas as partidas, mas que tem quase todas e as que interessam."

E continua Arlindo Vieira: "Tenho este livro com a capa num estado miserável e escurinho de tanto o manusear, prova provada, que fui mesmo um predestinado a "neca" de xadrez, pois tanto reproduzi as partidas do livro. E todas! Textos de Bisguier, alguma história dos Campeonatos dos EUA, um estudo de Keres, outro de Barden, um estudo do repertório de aberturas de Fischer. Índices de aberturas, de adversários e 770 partidas, umas comentadas estilo Informador, outras com texto, tornaram esse livro o ideal para uma visão global da obra genial de Fischer na tabuleiro. Foi na altura um "must" da Bastford, mas a versão espanhola que possuo, teve uma edição limitada, como limitada foi a vida da Bruguera Ajedrez. Cartonado, notação descritiva (parece que existe uma moderna  versão em notação algébrica), um belo livro."

"Talvez só o Bobby Fischer: Complete Games of the American World Champion, de Lou Hays , faça concorrência a Wade e Connell. Esse livro praticamente só se arranja nos alfarrabistas Web e no mínimo quem quiser a versão inglesa terá de despender cerca de 20 libras!".

Voltaremos com mais artigos sobre outros livros. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Aprendendo com Dvoretsky

Por FERNANDO MELO

A partida que vamos ver foi jogada no Campeonato dos Estados Unidos de 1980. Conduzia as brancas Joseph Bradford, atualmente com 66 anos, e as negras pelo saudoso Robert Byrne (nosso conhecido dos embates com Bobby Fischer), que faleceu em 2013.

Quem quiser aprender xadrez de verdade, nos dias de hoje, não pode dispensar o estudo aprofundado dos ensinamentos de Mark Dvoretsky. Essa é a razão que abro, a partir deste artigo, uma série de outros sobre esse mestre na arte de ensinar. 

Na partida em questão, Robert Byrne, conforme assinala Dvoretsky, "se viu tentado pela jogada espetacular 30. ....Dd4?? sem advertir o contragolpe não menos espetacular, mais muito mais efetivo... e que propiciou às brancas uma grande vantagem material".

Muito bem, que lance seria esse que Dvoretsky fala e que pertence a Bradford? Vale a pena ver a partida do início e chegar até ele... portanto:

Joseph Bradford
Joseph Bradford - Robert Byrne
Inglesa (A14)

1.Cf3 Cf6 2.g3 b6 3.Bg2 Bb7 4.0-0 e6 5.c4 Be7 6.b3 0-0 7.Bb2 c5 8.Cc3 d5 9.Ce5 Cc6 10.cd Ce5 11.d6 Bg2 12.de De7 13.Rg2 Tad8 14.Rg1 Cc6 15.d3 Cg4 16.Dd2 f5 17.Tad1 e5 18.f3 Cf6 19.Dg5 De6 20.Dh4 Cd4 21.e3 Cc2 22.Bc1 Cb4 23.d4 e4 24.dc Td1 25.Td1 bc 26.fe fe 27.Ba3 De5 28.Ca4 Cfd5 29.Cc5 Ce3 30.Cd7 Dd4 
E agora José? Como é que as brancas vão se sair dessa? Vejam o que Bradford faz!

31.Dh7+ !! Rh7 32.Cf8 Rg8 33.Td4 Cbc2 34.Te4 (1-0)

Qual seria então o lance correto para Byrne não perder a partida? E tem esse tal lance? Tem! Diz Dvoretsky:

"Porém jogando 30. ...Dd6! as negras ganhariam porque a Tf8 está defendida pela dama e o contra sacrifício da dama em h7 não tem sentido."
Também era possível, continua Dvoretsky, "30. ...Df5!? 31.Cf8 Cd1 32.Dh7+ Dh7 33.Ch7 Cc2 -+ ou 33. ...CD3 34.Cg5 e3 -+." 

Espero que tenham aproveitado bem. Até o próximo estudo.



A prancheta do fiscal!

Fischer contra Keres em Curaçao 1962, pelo Torrneio de Candidatos
Por FERNANDO MELO

Olhando bem essa foto, constatamos que está bem poluída! O normal, pelo menos nos dias de hoje, é termos as peças sobre o tabuleiro, o relógio e as súmulas. Mas a foto mostra mais. Xícara de café, prato com sanduíche e a prancheta do fiscal. Não posso precisar se era um costume da época, jogarem comendo, mas parece que Fischer estava com muita fome nesse torneio, onde não se deu muito bem no geral.

Estamos falando do Torneio de Candidatos  de Curaçao - 1962. Eram oito jogadores, cada um enfrentando o mesmo adversário quatro vezes! Um detalhe: dos oito, cinco eram russos! Estão vendo como era difícil para Fischer? Quebrar esse monopólio, esse imperialismo caissiano dos soviéticos, só mesmo um Fischer, mas que pagou caro, muito caro, bastante caro, com seus protestos homéricos, suas desistências históricas, tudo em nome de um xadrez leal e digno. Essa gratidão, todos nós que amamos o xadrez, devemos ter em favor de Bobby Fischer.

Antes de mostrarmos a partida da foto, em que Fischer ganhou, jogando com as brancas uma Rui Lopes, vamos falar um pouco sobre a prancheta do fiscal, prática não mais usada nos dias de hoje. Na verdade, não é fiscal, mas assistente de pontuação. Ele anotava cada lance que era passado para outro assistente que colocava no mural. Esses assistentes eram voluntários. E quanto a comer durante a partida, na própria mesa do jogo, tem um caso que ficou famoso. Não era comida propriamente, era bebida. Lembram do iogurte de Karpov!? Kasparov as vezes jogava com uma barra de chocolate ao lado. E atualmente, Magnus Carlsen, pelo menos quando começou a despontar, jogava com um suco de laranja ao lado. Mas vamos à partida. Desse embate de quatro partidas, uma vitória para cada um e dois empates.

Fischer - Keres
Rui Lopes (C96)

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4 Cf6 5.0-0 Be7 6.Te1 b5 7.Bb3 d6 8.c3 0-0 9.h3 Ca5 10.Bc2 c5 11.d4 Cd7 12.dc dc 13.Cbd2 Dc7 14.Cf1 Cb6 15,Ce3 Td8 16.De2 Be6 17.Cd5 Cd5 18.ed Cd5 19.Ce5 Ta7 20.Bf4 Db6 21.Tad1 g6 22.Cg4 Cc4 23.Bh6 Be6 24.Bb3 Db8 25.Td8 Bd8 26,Bc4 bc 27.Dc4 Dd6 28.Da4 De7 29.Cf6 Rh8 30.Cd5 Dd7 31.De4 Dd6  32.Cf4 Te7 33.Bg5 Te8 34.Bd8 Td8 35.Ce6 De6 36.De6 fe 37.Te6 Td1 38.Rh2 Td2 39.Tb6 Tf2 40.Tb7 Tf6 41.Rg3 (1-0) 


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Boas lembranças de Estocolmo!

Por FERNANDO MELO

Rudolf  Teschner (1922-2006)
Depois de analisar o resultado do Interzonal de Estocolmo 1962, começo a acreditar que Bobby Fischer, aos 18 anos, já tinha força para ser campeão do mundo. Ele ganhou esse torneio com facilidade. Foram 13 vitórias e nove empates, 17,5 pontos num total de 22 partidas jogadas entre 27 de janeiro a 6 de março. O russo Efim Geller terminou em segundo, com 15 pontos, 2,5 a menos do que Bobby. O terceiro lugar foi ocupado pelo russo Tigran Petrosian, também com 15 pontos. O quarto lugar pelo russo Viktor Korchnoi, com 14 pontos e teve mais um russo, Leonid Stein, que terminou em oitavo com 13,5 pontos. 

As partidas de Bobby Fischer, em geral, são merecedoras de atenção e tenho por todas especial carinho. Nesse Interzonal de Estocolmo, logo na primeira rodada, a partida me agradou muito. Para muitos, o nome do MI alemão Rudolf Teschner não significa nada, ainda mais se soubermos que ele terminou esse torneio em 21º lugar entre 23 jogadores, somando apenas 6,5 pontos, com 3 vitórias, 12 derrotas e sete empates.

O feito de ter empatado com Bobby Fischer, logo na primeira rodada e num empate de luta, o credencia. É certo que Fischer chegou atrasado, mas sabemos todos que o potencial do norte-americano (e provou isso vencendo o torneio) era muito além do potencial do alemão. Vejamos a partida.

Teschner - Fischer
Índia do Rei (E92)

1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.e4 0-0 5.Cf3 d6 6.Be2 e5 7.de de 8.Dd8 Td8 9.Bg5 Te8 10.Cd5 Cd5 11.cd c6 12.Bc4 cd 13.Bd5 Cd7 14.Tc1 h6 15.Be3 Cf6 16.Bb3 Ce4 17.Tc7 Be6 18.Be6 Te6 19.Tb7 Ta6 20.a3 Cd6 21.Tb4 Tc6 22.0-0 f5 23.g3 g5 24.Td1 a5 25.Ta4 Cc4 26.Tc1 Ch2 27.Tc6 Ca4 28.h4 f4 29.Bd2 e4 30.Ce1 fg 31.Tc4 gf+ 32.Rf2 e3 33.Re3 Cb6 34.Te4 Cd5+ 35.Re2 Cf6 36.Ta4 gh 37.Th4 Rh7 38.Ta4 Te8+ 39.Rf3 Cd7 40.Ta5 Ce5+ 41.Rf2 (1/2).

Além de jogador, Teschner foi editor por 38 anos (1950-1988) da revista alemã Deutsche Schachzeitung, a mais antiga do mundo e que foi fundada em 1846, por Ludwig Bledow. O nosso conhecido Siegbert Tarrasch foi seu editor em 1897.