sexta-feira, 26 de junho de 2020

O Voo do Capivara – “Esse não, Mr. Benko!”

Em 1977, o GM Paul Benko esteve no Brasil para dar uma série de simultâneas. Conta-se que, numa delas, o promotor do evento se dirigiu ao Grande Mestre e, apontando para um garoto de uns 15 anos de idade, disse categoricamente: “ - Você vai ganhar de todos, menos desse aqui!”. 

Dito e feito. Quando restou apenas uma partida, Benko pediu um relógio, colocou dez minutos para cada e, “tête-à-tête”, continuou o jogo. O menino colocou pressão, mas, inferior no tempo, optou por empatar por repetição de jogadas.

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Essa é uma história verídica. A simultânea foi jogada em João Pessoa (PB). Fernando Melo foi o seu promotor e o garoto era Francisco Cavalcanti, que viria a se tornar um destacado Mestre Fide. Melo a conta, sempre que tem oportunidade.

O menino Francisco Cavalcanti e o GM Paul Benko

Chiquinho, como é carinhosamente chamado por seus conterrâneos, possui um currículo respeitável. Tem seis títulos de campeão paraibano, já beliscou um título pernambucano absoluto, em 2011, e venceu vários torneios do circuito de abertos do Brasil. Em 1988, venceu a semifinal do Campeonato Brasileiro, em Goiânia (GO). O título de Mestre Fide foi conquistado em 2003, no Open Internacional de Nice, na França. 

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Foi colaborador do boletim “XADREZ NOTÍCIAS”, cujo editor era, sempre ele, Fernando Melo. Êh, Mestre Fernando, o xadrez brasileiro lhe tem uma dívida de gratidão! 

Na edição de agosto/1990, Mestre Chiquinho publicou um artigo, no qual comentou uma partida que jogou contra o Mestre Internacional Alexandru Segal, pela Semifinal do Brasileiro de 1989, em João Pessoa. 

Reproduzo a matéria logo abaixo. Vale a pena conferi-la. As notas foram incluídas por mim, baseadas em observações do Dr. Fritz. 

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QUESTÃO DE TÉCNICA

Um dos dilemas mais difíceis para o principiante é a diferença entre tática e estratégia, e a sua valorização.

Quem supera quem? Quando o Xadrez começou a expandir-se pelo mundo, os admiradores deste batizaram essa época de “Era Romântica”, pela facilidade de fazer combinações táticas com entrega de material. 

Os princípios estratégicos de posição quase não existiam para o enxadrista da época. Ficava difícil aprofundar-se nestes princípios, pois valorizava-se a tática como um todo. Só depois que William Steinitz proclamou-se campeão mundial, com grande contribuição teórica de sua parte, o Xadrez deu um salto importante para a evolução estratégica. 

Nos dias de hoje, onde os modernos meios de comunicação são fatores que contribuem em máxima para o progresso dos enxadristas, facilitando aos dedicados, através destes meios, a aprofundar-se nos princípios clássicos do Xadrez. 

Atualmente, uma partida bem jogada baseia-se nesses dois dilemas funcionando em harmonia conjunta, podendo-se afirmar que, sem estratégia, não há tática vencedora. Lance por lance, desde seu início, a partida apresenta vários detalhes táticos, porém esses detalhes aparecem por trás de um vasto conhecimento teórico e estratégico.

A teoria mede o conhecimento de aberturas, estudo de posições, meio jogo e final. Já a estratégia trabalha nos conceitos fundamentais, como conformação de peões, posicionamento das figuras, valorização dos materiais e estudos geométricos, etc.

Para surgir um arremate tático romântico, é preciso passar por todos esses conhecimentos, pois sempre estes arremates aparecem facilmente com um trabalho de posição bem realizado em seus devidos fins. 
Em 1989, na semifinal do Campeonato Brasileiro Absoluto realizado aqui em João Pessoa, joguei uma partida frente ao MI Alexandru Segal com estes temas citados.

Vejamos a partida comentada:

F. CAVACALCANTI - A. SEGAL 
Semifinal do Brasileiro
Hotel Tambaú – João Pessoa – 1989
Defesa Índia Antiga

1.d4 Cf6 2.c4 c5 3.d5 e5 4.Cc3 d6 5.e4 Be7 6.Cf3 0-0 7.Be2 Cbd7 8.0-0 a6 9.a3 Ce8 10.Ce1 g6 11.Cd3 Cg7 12.b4 b6 13.a4 f5 14.a5 bxa5 15.bxc5 dxc5

Com o debilitamento do esqueleto de peões negros e a pequena vantagem de espaço, as brancas têm o domínio estratégico.

Nota – A debilidade da estrutura de peões negros teve uma causa bem definida: o lance 13.... f5, que permitiu o avanço do peão “a”. Teria sido melhor ter consolidado a ala da dama, jogando 13.... a5. Claro que isso implicaria em fazer concessões, como a debilidade de “b5”, mas os danos seriam menores.

16.Da4 Cb6 17.Da5 Cc4 18.Da2!? Cd6 19.Ce5 

Apesar de não ter cometido erro grave, as pretas encontram-se numa situação difícil, à causa do ponto c6, que está fraco. Se 19.... Bb7 20.Cc4!, permanecendo as debilidades.

19.... fxe4

Se 19.... Bf6 20.Cc6 De8 21.e5! Be5 22.Ce5 De5 23.Ca4, com clara vantagem branca.

20.Cc6 De8 21.Ca4!

Com esse lance, as brancas dão sequência ao plano, ganhando qualidade. Porém, as pretas têm contrajogo na ala do rei.

21.... Bf6 22.Tb1 Cb5! 23.Bb2 Cd4 24.Bd4 cxd4 25.Cb6 Bf5 26.Ca8 Da8 27.Bc4!? h5 28.Tbd1 d3 29.f3!

Aqui poderia jogar 29.Da6, porém eu esperava mais desta posição.

29.... exf3 30.gxf3 Bh3 31.Tfe1

A partida agora caminha para tática aguda, onde os temas estratégicos favorecem ao branco pela vantagem material e colocação das figuras.

31.... Db7 32.Tb1 Dd7 33.Bd3 Dd6 34.Dc4! Bg5 35.Tb7!!

A jogada mais profunda, pois qualifica a superioridade, alinhava a melhor colocação das figuras, onde origina-se as sequências táticas. Tentar defender o peão de f com 35.Be4, além de permitir a fraqueza do ponto f4, bloqueia a coluna “e”.

Nota – As duas exclamações atribuídas pelo autor, refletem o seu entusiasmo com a posição. Também já passei por esse dilema: ganhar simples ou ganhar bonito? Saliente-se que as brancas conduziram o jogo de forma exemplar, mantendo uma consistente vantagem até esse momento. Com 35.Tb6 Rh7 36.Ta6, teriam obtido uma vitória tranquila. Com o lance jogado, a posição tende a ficar equilibrada. 

35.... Tf3

As pretas são forçadas a procurar contra-ataque, que parece bem idealizado com a aproximação das suas forças sobre o rei branco.

36.Ce7+

Aqui está a questão: se 36.... Rh7 37.Cg6 Tg3+ 38.Rf2 Tg2+ 39.Rf3 Df6+ (se 39.... Dh2 40.Cf4+ Rg8 única  41.Tb8+ Rf7  42.Dc7+ Rf6  43.Tf8 mate. Ou  39.... Th2  40.Ce5+ Rg8  41.Rg3! Decide)  40.Cf4+ Rh6 única 41.Te6! Be6 42.Rg2 Bf4 (42... Bg4 43.h3!) 43.dxe6 Dg5 44.Rf1 Be3 45.Re2 Dg1 46.Dh4 Bg5 única 47.Dg3 Dc1 48.h4! Dd2+ 49.Rf1 Dd1+ 50.Rg2 e Rh3 decide.


Nota - Essa é a posição crítica da partida. As brancas, ainda acreditando possuir vantagem, partem para a definição do jogo, usando as “rotas tormentosas” das linhas táticas. Cuidado! Muito cuidado. Tenho avisado. Esses são mares traiçoeiros. 

Mestre Chiquinho tomou sua decisão com base nessa extensa análise. Mas ela tem um furo. As brancas levariam mate! A título de exercício, dê mais uma olhada nela, e tente achar em que momento isso aconteceria. Só não vale consultar Dr. Fritz, ok?

Já apurado no tempo, o MI Segal não percebeu.

36.... Be7 37.T1e7 Tg3+ 38.Rf2 Df6+

Se 38.... Tg2+ 39.Re3 e o preto já pode abandonar.

39.Rg3 h4 40.Dh4 Ch5+

A última rasteira, pois se 41.Rh3?? Df3+ 42.Dg3 Cf4+ 43.Rh4 Dh5 mate.

41.Dh5 e a bandeira negra sumiu.

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Conseguiu achar o furo? 

Olhe o diagrama mais uma vez e acompanhe a seguinte linha: 36.... Rh7 37.Cg6 Tg3+ 38.Rf2 Tg2+ 39.Rf3. O autor considerou as opções de 39.... Df6+, 39.... Dh2 e 39.... Th2. Porém, tem outra alternativa. Qual? 

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Enquanto você pensa, é necessário fazer um esclarecimento, pois alguém pode estar se perguntando: por que uma coluna chamada de “O Voo do Capivara” publica um texto falando sobre um Mestre Fide? Veja bem, diligente leitor, esse é um espaço democrático. Onde cabe um capivara, haverá sempre de caber um mestre.

Aliás, o único capivara, que bate o ponto aqui, sou eu. Pronto, falei!

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Segue a solução:
39.... Tf2+!, pois se 40.Rf2 Dh2+, seguindo de Dg2 mate. Se 40.Re4, as pretas teriam 40.... Tf4+ ou 40.... Df6, com mate inevitável.

10 comentários:

  1. O texto resgata um grande momento vivido pelo xadrez nordestino! Parabéns, Mestre Urquiza!

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  2. Marcelo Urquiza ótima resenha! isso é muito importante para a história do xadrez na PB e no Nordeste, parabéns!
    Aproveitando a oportunidade, gastaria de acrescentar mais uma ocorrida no ano seguinte: Em 1978 o favorito para ser o campeão do Campeonato Brasileiro Juvenil era Gilberto Milos. Porém, não contaram pra ele que havia duas pedras no caminho: Eu consegui um empate e "Chiquinho da Paraíba" o derrotou, seno assim, em 7 rodadas Milos fez 5,5 pontos terminando em 3º lugar no brasileiro. Naquele mesmo ano, Gilberto Milos ficou em 4º lugar no Mundial de Cadetes e três anos depois foi o Campeão Brasileiro Absoluto!

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    1. Obrigado, Mestre Roberto.
      Essas lembranças são valiosas!
      Consegui arrancar um empate contra Chiquinho nesse mesmo ano, nos Jogos Escolares Brasileiros, em Natal.
      Marcello

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  3. Excelente texto, mestre! Apenas uma sugestão: seria interessar colocar um link com a partida online para podermos acompanhar melhor as análises.

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    1. Eita, Mestre Arthur! Você sabe que sou um dinossauro redivivo, né? Sei mexer nesses troços não. Mas sua ajuda será bem bem-vinda.
      Marcello

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  4. Talentoso Chiquinho da Paraíba, tinha força de MI se tivesse mais oportunidades. Se a quantidade de torneios valendo norma, dos anos 80 e 90, fossem como as hoje, teria sido MI.
    Abraços aos amigos da Paraíba!

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  5. Bonita foto! Quem será que a recortou e a colocou num porta retrato?

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  6. Interessante! É possível perceber pelo texto e comentários que, o mestre Assis desde cedo desponta como um talentoso jogador e que continua sendo um forte enxadrista. Parabéns ao mestre pela bela trajetória.

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  7. Essa partida ajuda a melhorar o conhecimento analítico e sintético, conhecendo o xadrez com uma resenha histórica e cultural do xadrez Paraibano com MF Francisco Cavalcanti um talento sensacional.

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