domingo, 20 de junho de 2021

Darcy assusta os russos!

 Por Fernando Melo




O GM Darcy Lima (ELO 2516) tem uma passagem bastante curiosa na sua vida profissional de enxadrista. Todos nós sabemos que os russos são os melhores do mundo. É mesmo uma questão cultural. Não adianta questionar. Lembremos que em 1972, veio Bobby Fischer e tomou a coroa, deixando os russos atordoados. Atualmente o campeão do mundo não é russo. É da Noruega, mas isso não tira o mérito dos russos continuarem pontificando no tabuleiro mundial.

Nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2011, o GM Peter Svidler (ELO 2743 - 8 vezes campeão da Rússia) enfrentou o brasileiro, e a primeira partida terminou empatada. Até onde estou informado, o russo "suou" para não perder esse embate, já que teve um momento em que ficou inferior. O GM Alexander Grischuk, segundo de Svidler nessa Copa, chamou a atenção deste ,ao dizer que o ELO de Darcy não representava a força que ele tinha, que tivesse cuidado.  E na segunda partida, Svidler venceu e Darcy teve que voltar para o Brasil, com o melhor dos troféus: ter conquistado o respeito dos russos.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Bobby Fischer - O escudeiro de Caíssa



Quem desejar adquirir o livro O escudeiro de Caíssa, de autoria de Fernando Melo, de qualquer lugar do Brasil, pode enviar e-mail para samelojp@gmail.com, informando nome e endereço completo (com CEP), que retornaremos o contato, com instruções para que seja efetuado o pagamento no valor total de R$ 30,00 + custos de postagem.


Confira a seguir o prefácio do livro:

Tenho cá para mim que Fernando Melo está feliz, muito feliz, bastante feliz! Ele certamente haverá de perdoar esse plágio do seu jeito particular de descrever a intensidade de um adjetivo nos seus textos. É porque, só assim, para tentarmos capturar o sentimento que há de lhe ter dominado, após a conclusão dessa obra sobre o ex-campeão mundial de xadrez, o genial norte-americano Bobby Fischer!

E antes de explicar a razão dessa felicidade, devo primeiro dizer algo mais. Diz-se que o homem, na sua vida, deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro... Essa frase talvez permita interpretações das mais diversas, dentre as quais, provavelmente, aquela que a toma em seu sentido literal. E se assim fizermos, ao menos no que diz respeito a escrever um livro, Fernando Melo não teria ainda cumprido a sua missão entre nós, mesmo já tendo escrito, não apenas um, mais muitos outros livros, sobre temas dos mais diversos. Faltava um! Faltava um livro sobre xadrez! E, sobretudo, faltava um livro sobre Bobby Fischer!

Ele agora chega nas mãos dos leitores, notadamente do público enxadrístico, para se somar ao repertório de publicações de Fernando Melo, que, assim como fez nos seus romances, nos enredos policiais, nas biografias de personalidades paraibanas marcantes, traz seu estilo jornalístico livre, irreverente, que não se rende aos rigores de uma erudição indesejada.

Não é difícil perceber nas entrelinhas dos seus escritos, a paixão que o motiva! Fernando Melo é, sem dúvida, um sujeito movido pela paixão! Por isso mesmo, com a mesma energia intensa com que se dedica a um projeto, pode muito bem descartá-lo, sem cerimônia, se algo irrompe em seu caminho, trazendo-lhe frustração. Até mesmo o xadrez foi alvo das suas idas e vindas, mas a Deusa Caíssa, diligente, não desejou que um súdito assim, tão intensamente apaixonado pela sua nobre arte, dela se afastasse em definitivo.

E assim o xadrez, desde sempre, se fez, e se faz, presente na vida de Melo e de sua família, que além de mim, seu filho caçula, tem no seu primogênito Sílvio, meu irmão, e na sua dedicada esposa Ana, minha querida mãe, seguidores dessa magia do jogo dos reis, que tanto nos une e nos fascina! A “febre”, inclusive, não cessa! Melo haverá de ficar radiante ao ler estas linhas e saber que seus netos (meus filhos) já demonstram um notório interesse pelo xadrez, mais além do que o simples brincar! Daniel (10 anos) “quer ser Bobby Fischer” e Maria Rita (6 anos) “quer ser Judit Polgar” (indiscutivelmente a maior representante do xadrez feminino da história!).

Tal intensidade na vivência do xadrez ganhou especial força nos últimos oito anos, em função da criação, por Melo, do blog Reino de Caíssa, que, desde então, traz postagens quase que diárias sobre o universo das 64 casas, seja a nível local, nacional ou internacional. O endereço na internet já rompeu a casa de um milhão de visitantes desde o seu início em 2009 e é, certamente, um dos espaços sobre xadrez mais prestigiados na internet brasileira.

E sabe qual o tema mais recorrente de matérias no blog? Não seria difícil para o leitor curioso, numa breve pesquisa por lá, descobrir que o campeão de postagens é ele: Bobby Fischer! Até mesmo eu, que durante um certo período assumi a titularidade do blog (hoje Melo e eu dividimos a editoria da página) não me furtei, vez por outra, de reverenciar o eterno ex-campeão mundial americano, principalmente nos momentos de promover o principal evento do calendário enxadrístico da Paraíba, cujo nome, claro, não poderia ser outro: Memorial Bobby Fischer, também uma criação de Melo, que hoje tem status de Aberto do Brasil e desfruta de grande aceitação em todo o país (em 2017, o evento chega a sua 8ª edição).

Alguém pode estar pensando: ora, os filhos só celebram Bobby Fischer assim, influenciados pela paixão do pai por ele! Pode até ser, mas, no meu caso, tenho um precedente que me favorece. Numa família de vascaínos (meu pai, minha mãe e meu irmão), tive a sorte de sair flamenguista, o que mostra talvez um pouco de minha autenticidade!

Irreverências à parte, o fato é que não parece muito árduo notar em Fischer uma genialidade que lhe fez único! Se até mesmo nomes como Kasparov e Carlsen dão depoimentos nos quais podemos perceber, sem muito esforço, o reconhecimento de Fischer como o maior enxadrista de todos os tempos, parecem de menor relevância quaisquer opiniões em sentido diverso...

A propósito, mesmo conhecendo os grandes feitos de Fischer, não é raro encontrar-me impressionado novamente ao reler suas proezas, como, aliás, aconteceu quando lia este livro de Fernando Melo.

Confira você mesmo, leitor! Deguste as próximas páginas e se aperceba da grandeza de Bobby Fischer!

E não se preocupe, achando que vai encontrar passagens exaustivas sobre a vida do americano genial. Nota-se com facilidade que não foi o propósito de Fernando Melo escrever uma biografia completa do saudoso ex-campeão mundial. A obra está perfeitamente delimitada apenas naqueles que, para o autor, foram os momentos mais intensos da carreira enxadrística de Fischer, com ênfase maior no seu significado para o xadrez e menos tinta nas suas idiossincrasias ou personalidade polêmica.

Sob alguns títulos bem criativos, os capítulos retomam a campanha do americano em todos os torneios de relevo de que participou, amparados em uma investigação de cunho jornalístico, que buscou contribuições de alguns dos principais autores sobre Fischer.

Com números que realçam os seus feitos, reprodução de comentários de especialistas e jogadores da época (muitos dos quais seus rivais russos), além, é claro, de partidas célebres selecionadas de Fischer, o livro de Melo, na sua linguagem que lhe é peculiar, há de agradar ao seu público, quem sabe contribuindo para despertar neste também uma admiração especial por aquele que, estamos nós convencidos, foi o maior enxadrista da história!

Fernando Melo agora é autor, portanto, de um livro sobre Bobby Fischer, o Escudeiro de Caíssa! Eis aqui a razão de sua felicidade!

 

João Pessoa 26 de dezembro de 2016

 

Fernando Sá de Melo

Coeditor do Blog Reino de Caíssa

segunda-feira, 14 de junho de 2021

O Golpe da Loira Fatal

 Antes de passar ao “causo” que nos ocupa, necessito me justificar perante os leitores do Blog Reino de Caissa. Meus textos, apesar de abordar assuntos técnicos referentes ao xadrez, têm características de crônicas, pois busco sempre vinculá-los, numa abordagem bem humorada, a algum episódio que testemunhei ou do qual fiz parte.

Os cronistas se inspiram em pequenos episódios do dia a dia, dando-lhes um significado especial, para escrever seus textos. Longe de mim querer me incluir numa tão nobre categoria de artistas. Mas, a exemplo deles, retiro do cotidiano do xadrez os motivos para meus escritos. E, convenhamos, a vida vem andando devagar... E com justa razão. Essa pandemia sem fim nos obriga a reduzir o ritmo a fim de conter a proliferação do vírus. Da mesma forma acontece com o xadrez presencial. Os torneios são raros, motivo pelo qual não venho publicando com a regularidade que gostaria.

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São raros, mas acontecem. Vez por outra, participo de algum. Apesar da forte oposição da família. Desta vez foi o Aberto do Brasil de Araruama, no Rio de Janeiro. Embarquei para lá no dia 01/06 e fiquei hospedado no hotel onde os jogos seriam realizados. No dia seguinte, o MN Joca Dedeus me mandou uma mensagem perguntando se eu aceitaria dividir o apartamento com um amigo dele, que tinha ficado sem acomodação. “Sem problema, Mestre”, respondi.

Meu companheiro de quarto, carioca boa praça, tinha uma rotina bem definida: logo que acordava, ligava para a namorada, da cama mesmo. No intervalo entre as duas rodadas do dia, outra ligação. E, finalmente, antes de dormir, tinham a última conversa.

Era um chameguinho de lá, outro chameguinho de cá; ciumezinho de lá, ciumezinho de cá; saudade do lado de lá, saudade do lado de cá... Coisas de casal apaixonado. Já habituado com o teor das conversas, eu dava pouca atenção ao que se passava. Mas uma frase dita em uma dessas ligações despertou minha atenção.

- Olha, você está chorando porque quer atrair a atenção dos olhares masculinos. Esse é o golpe da loira fatal!”, disse meu companheiro de quarto, creio que para descontrair.

Opa!!”, pensei. Aquilo me fez lembrar de algo de tinha ocorrido na partida que joguei naquela tarde.

Deixo a interpretação do que aconteceu a seu cargo, caro leitor.

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Fotografia com minha simpática adversária. 

E antes que alguém pergunte de que se trata aquela garrafa que estava na outra mesa, já respondo: é uma garrafa de cerveja mesmo! A foto foi tirada no final da última rodada, e eu já estava comemorando minha participação em mais uma festa do xadrez brasileiro.

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Marcello Urquiza x Kim Garcia

Aberto do Brasil de Araruama

3ª rodada – 04/06/2021


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=pABq8r9nOXgz/X55gsMIxvIutPEnr2gH/qj0ZLLuWJKpmVNUruIlOD3kDJmrp6n5

1.e4 c6 2.d4 d5 3.Cc3 dxe4 4.Cxe4 Bf5 5.Cg3 Bg6 6.h4 h6 7.Cf3 Cd7 8.h5 Bh7 9.Bd3 Bxd3 10.Dxd3 e6 11.Bf4 Da5+ 12.Bd2

Não nutro muita simpatia por essa linha da Caro Kann. Ela já foi exaustivamente estudada, e algumas de suas variantes teóricas chegam a ultrapassar vinte lances. Mas como não conhecia outra forma de enfrentá-la, então fui desse jeito mesmo.

12.... Bb4+

Uma novidade para mim.

13.c3 Be7 14.c4 Dc7 15.0-0-0 Cgf6 16.Rb1 0-0-0

Aqui o mais jogado é 16.... 0-0, o que me parece ser a razão do lance 12.... Bb4+, provocando o avanço do peão “c”. E então teríamos uma partida de roques opostos, com todas as complicações que envolvem esse tipo de posição.

17.Ce4 Cxe4 18.Dxe4 Cf6 19.De2 The8 20.Bc3 Cd7 21.Ce5 Tf8

Eu achava que após a troca dos cavalos, com 21.... Ce5 22.fxe5, as brancas teriam alguma vantagem devido ao maior espaço na ala do rei. Mas Dr. Fritz não concorda com esse entendimento e afirma que a posição estaria igualada.

O lance jogado na partida é inferior, pois dá oportunidade às brancas de fazer a ruptura central, com graves consequências para as negras.

22.d5 Cc5

As negras não tinham boas opções. Por exemplo:

a) Se 22.... exd5, eu estava pensando em jogar 23.Cxd7 Dxd7 24.Bxg7 ou 23.Cc6 Dxc6 24.Dxe7, com vantagem em ambos os casos.

b) Com 22.... cxd5, as negras exporiam seu rei perigosamente após 23.cxd5 exd5 24.Td5.

23.dxc6

Dirigi minha atenção para o peão de “c6”. Nem cheguei a considerar 23.dxe6, pois entendi que o lance jogado seria suficiente para obter vantagem.

Preciso fazer um “mea-culpa”: estávamos numa posição crítica da partida, e nenhuma possibilidade poderia ter sido descartada.

Não que 23.dxc6 seja é um mal lance, mas a melhor opção mesmo era capturar o peão de “e”. Por exemplo:

23.dxe6 fxe6 (se 23.... Cxe6, segue 24.Cxf7) 24.Cg6 Txd1+ (24.... Tg8 25.b4) 25.Txd1 Td8 26.Bxg7, com vantagem decisiva.

23.... bxc6 24.Df3 Bf6

24.... Rb7 não resolveria o problema. Por exemplo: 25.Cxf7 Txd1+ 26.Txd1, e se 26.... Bg5, então 27.Cd6+.

25.Txd8+

Não quis capturar o peão de “c6” de imediato para não comprometer minha estrutura de peões, depois de 25.Cxc6 Txd1+ 26.Txd1 Bxc3 27.bxc3. Mas Dr. Fritz avalia que essa posição é claramente vantajosa para as brancas.

Eu quis ganhar o peão sem ceder nada em troca. O GM Jonathan Rowson escreveu um livro chamado “Los siete pecados capitales del ajedrez”. Recomendo. Mas só que ele não abordou o pecado da avareza...

Aliás, sobre avareza, você pode ler o seguinte texto:

https://reinodecaissa.blogspot.com/2020/03/desventuras-de-um-capivara-i-o-pecado.html

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Foi aí que eu percebi que minha adversária estava mordiscando as unhas.

25.... Txd8



O momento tão aguardado: o ganho de um peão com 26.Cxc6, ademais de expor do rei das negras.

Fiz menção de tocar no cavalo. Mas recuei. Precisava dar uma última checada na posição...

Minha adversária continuava a mordiscar as unhas, agora com um jeito um tanto desalentado. Isso só fez aumentar a confiança de que estava no caminho certo.

Como não observei nenhuma intercorrência (para usar uma palavra da moda), decidi capturar o peão... Vamos que vamos!

26.Cxc6

Mas …

26.... Td3!

Hã??” …

… “Ui!”

Devo ter feito uma expressão parecida com a que Carlsen fez quando levou aquela pancada de Supi.

Perdi meu cavalinho...”

E foi aquele desespero para tentar encontrar uma forma de minimizar o prejuízo. 27.Ba5 era a melhor alternativa. Por exemplo:

Com 27.Ba5 Txf3 28.Bxc7 Rxc7 29.gxf3 Rxc6, e talvez eu tivesse alguma chance de lutar por conta dos peões da ala da dama. Mas percebi que as pretas poderiam jogar 28.... Txf2, e o final resultante me pareceu sem esperança.

Então tomei uma medida compatível como meu desespero, apelando para um eventual xeque perpétuo.

27.Cxa7+ Dxa7 28.Dc6+ Dc7 29.Da8+ Rd7 30.Bxf6 gxf6 31.Df8

As brancas estão perdidas. Além da desvantagem material, seu rei está sozinho frente a três poderosas peças. Bastaria organizar o ataque. Dr. Fritz sugeriu a seguinte linha: 31.... De5 32.Dxf7+ Rc6 33.De8+ Rc7 34.Db5 Df5 35.Ra1 Dxf2.

31.... Dd6

Mas as pretas preferiram materializar sua vantagem de forma mais tranquila.

32.Dxh6

Ainda fruto do desespero. 32.Dxd6+ era a melhor alternativa.

32.... Td2

As brancas não encontraram o caminho mais fácil para a vitória. Com 32.... Ca4, o ataque seria irresistível.

33.De3 Td3

Era melhor 33.... Td1+ 34.Txd1 Dxd1 35.Dc1 Dxh5, com vantagem, apesar de que as brancas teriam algumas chances de complicar o jogo.

34.Dc1

A essa altura, com o tempo se esgotando para ambos os jogadores, os erros se sucediam. Ademais, a posição era muito complexa. Eu estava pensando na possibilidade de trocar minha dama pela torre e pelo cavalo, e avançar o peão de “h” até “h7”, deixando a dama negra limitada a impedir h8=D.

Mas o Dr. Fritz diz que a melhor defesa era 34.De2!, pois se 34.... Td2, a dama retornaria para “e3”. E se as negras tentassem incrementar o ataque com 34.... Ca4, então 35.Dc2, obrigando o cavalo a voltar.

A posição estaria melhor para as negras, mas as brancas teriam amplas possibilidades de defesa.

34.... Ce4

E as negras perderam o foco do ataque devido à sua preocupação com o peão “h”.

Com 34.... Td2, seguido de ...Ca4, teria acontecido a troca da dama pela torre e pelo cavalo. Vejamos o que Dr. Fritz diz a respeito disso: 34.... Td2 35.h6 Ca4 36.Ra1 Cxb2 37.Dxb2 Txb2 38.Rxb2 Db4+ 39.Ra1 Dc3+ 40.Rb1 Dd3+ 41.Rb2 Dh7, e o peão não conseguiria chegar a “h7”, com vantagem decisiva para as negras.

Mas como ganhar? O rei não tem tempo de ir para “h8”, já que os peões da ala da dama avançariam. Quem se propõe a formular um plano?

35.h6 Cg5

Com 35.... Cxf2 36.h7 Cxh1 37.h8=D Td1 38.Dxh1 Txh1 39.Dxh1 Dxd3+, o final resultante estaria empatado.

36.Rc2 Ch7

Último erro. Agora as pretas estão perdidas. Com a simplificação que se segue, o cavalo ficará retido em “h7”, e o rei preto não poderá conter o avanço dos peões da ala da dama.

Com 36.... Dd4 a partida estaria igualada. Recorro a Dr. Fritz mais uma vez (aliás, ele foi imprescindível para a análise dessa partida): 36.... Dd4 37.c5 De4 38.Td1 Txd1+ 39.Rxd1 Dxg2 40.Dd2+ Re8 41.Dd6, com provável empate por xeque perpétuo.

37.Td1 Txd1 38.Dxd1 Dxd1+ 39.Rxd1 f5 40.b4 e5 41.a4 Rc6 42.a5 e4 43.g3 f6 44.b5+

As pretas abandonam.

*******

Judith Polgar certa vez disse que o xadrez tem um importante componente psicológico. Que seria difícil para ela vencer um computador, já que não seria possível confundi-lo.

Sabemos que as reações de nossos adversários indicam como eles estão se sentindo em determinado momento do jogo. Suas expressões corporais, expressões faciais, grunhidos, forma de fazer um lance, etc. Tudo isso são indicadores.

Mas também existem os gestos “teatrais”. O Professor Antonio Dutra, de João Pessoa, se tornou conhecido entre os amigos como o “Mestre das Táticas” porque, jogando uma partida, ele executou um lance e de imediato levou as mãos à cabeça, dando a impressão de que tinha cometido um erro crasso. O gestual passou credibilidade para seu adversário, que aceitou de bom grado o peão que ficou pendurado... Perdeu a partida, é claro.

E isso nos impõe mais um desafio: identificar se as sinalizações são autênticas ou se se tratam apenas de “cena”.

Não sei dizer se o mordiscar de unhas de minha adversária foi “cenográfico” ou apenas um cacoete sem qualquer vinculação com a partida. Mas o certo é que ele me deu uma falsa sensação de segurança.

Isso posto. Já alertei aos leitores que é necessário ter muito cuidado quando formos navegar pelos mares tormentosos das linhas táticas.

E se sua adversária for uma moça bonita mordiscando as unhas, com um jeito meio largado, então redobrem a atenção!

Cuidado com o canto das sereias!

Quem avisa, amigo é...





quarta-feira, 28 de abril de 2021

Não tenhais medo: ou o dia em que eu derrotei um Grande Mestre

 Por Arthur Olinto


Era apenas uma terça-feira comum: trabalho, trabalho e mais trabalho. No final do dia, nada melhor do que se dedicar a um hobby, ocupar a mente para relaxar. Ligo o computador, uma leve brisa corre pela sala do meu apartamento, nove da noite. Enfrento o primeiro adversário. Vitória tranquila, sem contratempos. Levanto, pego uma água, quando volto à mesa, meu relógio já está correndo. Inicio com o meu usual peão de rei: e até aí, tudo bem.

Quando olho para o lado da tela, percebo que há algo diferente: “GM”, estava lá a sigla. Quase 2600 de rating. Começo a suar frio, não era possível enfrentar um jogador tão forte na segunda rodada de um torneio on-line. Estava diante de Alexandr Fier, o número 3 do país e tricampeão brasileiro! Jogador de estilo arrojado, pra cima, famoso por aparentar não ter medo de nenhum adversário e dono de um apelido que é um trocadilho com o seu próprio nome: NoFear (*). 

Começo a pensar muito nos lances, com a sensação de que eu seria massacrado a qualquer momento. Era arco e flecha contra uma bomba nuclear, Davi contra Golias. Mas, já diria Joseph Climber: a vida, meus amigos, é uma caixinha de surpresas...

 O autor conversando com o GM Supi, durante o Memorial Bobby Fischer/2018


Então, vejam o que aconteceu:


Arthur Olinto (2298) – A. Fier (Microwaver – 2588)

6º Brasileirão de Xadrez On-line - 24/03/2021

Plataforma Lichess


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=wreLWLCowuJf4dXxHRWhjPm/1XUEY/9Od6sxsZ1mtnnxynTSB6GIAVh/bhmpKtPb


1. e4 c5 2. Nc3 

Siciliana Fechada. Evidentemente que não iria entrar na teoria com um GM, seria suicídio. Então, aqui estamos jogando xadrez, sem decorebas.

2.... Cc6 3. Cge2 g6 4. d3 Bg7 5. g3 d6 6. Bg2 e5 7. O-O Cge7 8. f4 h5

O preto abre mão do roque buscando um ataque rápido na ala do rei.



         9. Be3 h4 10. Dd2 hxg3 11. hxg3 Bg4 12. f5 

Abrindo linhas de para o ataque.

12.... gxf5 13. exf5 Cxf5 14. Cd5 Cxe3 15. Dxe3 Dd7?? 

O erro que custou a partida: ele pretende rocar grande, mas é claro que eu não deixei.

16. Dg5 Th7 17. Cec3 Ce7 

Perdendo uma peça imediatamente.



          Agora, o preto não tem como segurar o bispo de g4 depois da captura do cavalo de e7! Vantagem decisiva para as brancas.

18. Cxe7 Bh3 19. Cf5 Bxg2 20. Rxg2 Bf8 21. Ce4 Dc6 22. Rg1 Th8 23. Cf6+ Rd8 24. Cg8+ Rc7 25. Df6 Dh1+ 26. Rf2 Dh2+ 27. Re1 Txg8 28. Dxf7+ Rb6 29. Dxg8 Bh6 30. Db3+ Rc6 31. Cxh6 Dxh6 32. Tf7 b5 33. a4 b4 34. Dc4 Dh1+ 

O preto tenta um contra jogo, sem sucesso. 

35. Re2 Dg2+ 36. Tf2 Dxg3 37. Db5+ Rd5 38. Dc4+ Rc6 39. Da6+ Rd5 40. Db7+ Re6 41. Dxa8 c4 42. Df3 Dg6 43. Df6+ Dxf6 44. Txf6+ 1-0

Nervos à flor da pele, ainda sem acreditar na rendição do Grande Mestre, suspiro aliviado. Jogar sem medo, "no fear", sempre! 


Nota - "No fear": sem medo.

sábado, 13 de março de 2021

A culpa foi da Nina

Em fevereiro, no período de 26 a 28, foi realizado o Aberto do Brasil de Aparecida de Goiânia. Em que pese a pandemia e as preocupações da família, lá fui eu de novo. A “secura” estava grande... Mas agora vou me aquietar. Esperar esse vírus entrar em declínio para voltar a jogar.

O pódio do torneio: GM Neuris Delgado, GM André Diamant e GM Darcy Lima

Me aconteceu de tudo no torneio: ganhei a primeira partida por “mate celular”. O telefone do meu adversário tocou durante a partida!

Na terceira rodada, fiz uma grande bobagem, pois achei que era obrigado a trocar minha dama por torre e bispo, quando poderia tê-la trocado por torre e duas peças menores. Passei o resto da partida tentando empatar, aí meu adversário ficou impaciente e quis forçar a vitória... terminou perdendo.

Na quinta, aceitei um sacrifício não obrigatório e levei mate em quatro lances! Aí, aí, aí... acho que eu, vai lá, estava cansado, né?

Por fim, segue o relato de outra situação inusitada. Com cem por cento de aproveitamento nas três primeiras rodadas, na próxima não teria como escapar de enfrentar um dos quatro Grandes Mestres que estavam participando. O Swiss Maneger me encaminhou para o anfitrião, o GM André Diamant.

Em tempo, não sei como classificar o que aconteceu: se como voo ou desventura. Deixarei essa escolha a seu cargo.

Partida entre o GM Alexandr Fier e o GM André Diamant.

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Marcello Urquiza x GM André Diamant

Aparecida de Goiânia (GO), 27/02/2021

Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=F3AoK6jiLR4AmCIEDIzLaj9R7kv+vzQ/udKLX2DtU+Fa3iyoSlTc2X+5eI+1d6U+


1.e4 c5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 e6 4.0-0 Cge7 5.Te1 Cd4 6.Cd4 cxd4 7.c3 a6 8.Bf1 Cc6 9.d3

Há outras opções mais agudas baseadas em Ca3 ou b4. Mas, além de não me lembrar de nenhuma linha concreta, não seria de “bom tom” ter uma atitude mais agressiva frente a um Grande Mestre. Melhor jogar algo mais tranquilo...

9... Bc5 10.Cd2 0-0 11.Cb3 Ba7 12.cxd4 Cd4 13.Be3 e5

ou 13.... Cb3 14.Db3 Be3 15.Te3 b5 16.d4, com jogo igual.

14.Cd4 exd4 15.Bf4 d6 16.Be2

Converse com as peças”, aconselha Jonathan Rowson, em seu livro “Los siete pecados capitales del ajedrez”. Recomendo sua leitura. Troquei umas ideias com meu bispo e decidimos que sua melhor posição era na casa “f3”.

16.... Be6 17.Dd2 a5 18.Bf3 Bc5 19.a3 Db6 20.Tac1 f6

Buscando se prevenir a uma possível ruptura das brancas em “e5”.

21.h3 Tfe8 22.Bg4

Libera o peão “f” com ganho de tempo. Não acreditava que as pretas trocariam seu bispo bom, embora fosse possível.

22.... Bb3 23.Bg3 Te7 24.f4 Tae8 25.Bh5

Mais um ganho de tempo. O bispo retornará para f3. 25.... g6 fragilizaria a estrutura do roque.

25.... Tf8 26.Te2 a4 27.Bf3 Db5

Tocando meu peão de “d”. Mas o que me preocupou mesmo foi a seguinte ameaça: Bb6, seguido de Ba5, capturando a dama.

28.f5

Dando um suspiro para a dama e preparando o avanço g4.

28.... Bf7

Mas o plano das negras era outro. Esse lance evita o Bh5 das brancas, permitindo que a torre de “f” retorne para “e8” quando, então, será tentada a ruptura em “d5”.

29.Be1

Evita a ameaça do comentário do lance 27 e libera o avanço do peão “g”. A preocupação com a manobra Bb6/Ba5 me custou valiosos minutos. Então, quando cheguei em casa, Dr. Fritz me fez ver que 29.... Bb6 não já seria possível, tendo em vista 30.Bxd6. Como esse doutor é chato... joga as coisas assim, na nossa cara! Mas os capivaras têm dessas manias: costumam ver fantasmas quando enfrentam um jogador mais forte.

O lance jogado não comprometeu a posição, mas 29.Bf4, com a mesma ideia de expansão da ala do rei, daria uma pequena vantagem às brancas. Agora o jogo está igualado.

29.... Tfe8 30.g4 d5?!


Tomei a liberdade de colocar o signo de duvidoso em um lance de um Grande Mestre. Eu já tinha percebido a fragilidade desse movimento durante o jogo, mas agora estou respaldado pela abalizada opinião do Dr. Fritz. As pretas estão sendo coerentes com seu plano, mas observe que lhes falta um tempo. Por exemplo: se a vez de jogar fosse delas, após 31... dxe5 32.Be4, não poderiam jogar 32.... Bd5 por 33.Bd5, com xeque.

Por outro lado, o bispo de “c5” ficou sem a proteção do peão. A dama precisará se preocupar com sua defesa, além de alguns temas táticos baseados em Txc5 e Bb4.

31.g5 fxg5 32.Dg5 h6

Notei que meu adversário só se deu conta de um detalhe tático nesse momento. Sua intenção era jogar 32.... Dd3, cuja resposta teria sido 33.f6, com ataque duplo. Mas “a emenda ficou ficou pior do que o soneto”, pois o lance jogado piorou a posição das negras e não debelou a ameaça de f6.

Ironicamente, a melhor resposta era mesmo 32.... Dd3. Uma possível continuação seria: 33.f6 Bg6 34.fxe7 Df3 35.Tf2 De4 36.Tc5 De1+ 37.Tf1 De7 38.De7 Te7 39.Td5, com muito jogo pela frente.

33.Dg3 Rh7 34.e5

A posição das negras é desesperadora. Percebendo a possibilidade concreta de vencer o jogo, me levantei e fiquei observando a posição à distância. Havia muitas ameaças rondando o rei negro. Por exemplo: 35.Tg2 Bg8 36.Dg6+ Rh8 37.f6 ou 35.Tg2 Tg8 36.e6 Bd8 37.Bd5, etc.

Então notei um lance que evitaria o desastre imediato: Bd6. Visualizei a seguinte linha: 34.... Bd6 35.exd6 Te2 36.Be2 Te2 37.Tc7. Pensei: “vou esperar meu adversário jogar para avaliar melhor a posição resultante”.

Após longa reflexão, Diamant joga...

34.... Bd6

e propõe empate.

Sabe aqueles hormônios da felicidade? Serotonina, dopamina, endorfina? Meu cérebro foi imediatamente inundado por eles. Foi um tal de Nina, Mina e Fina a dar pinote e a fazer algazarra dentro da minha cabeça, que fiquei sem a mínima condição de pensar. Avaliar a posição resultante? Sem chance.

Estiquei o punho e cumprimentei meu adversário, aceitando a proposta.

Ele ficou olhando para mim, atônito. Confirmei:

- Sim. Eu aceito seu empate.”

Então ele reagiu, um tanto indignado:

- Mas você está ganho!!”

- Não quero nem saber! Eu estou muito feliz!!”, respondi em voz alta, recebendo uma imediata reprimenda do árbitro.

35. Empate

Ah, Nina. Já não basta a capivara?

********


Muitos caminhos levariam à vitória nessa posição, inclusive a linha que eu havia visualizado.

Por exemplo: 35.exd6 Te2 36.Be2 Te2 37.Tc7 Te3 38.Dh4 De8 39.Bf2, com a ameaça de d7.

********

Sim. Sei disso. Tenho uma grave carência em um aspecto fundamental para o xadrez: o sangue frio. Vou tentar melhorar, mas por enquanto vou ficar curtindo a alegria de ter obtido tão significativo resultado frente a um Grande Mestre. 




quarta-feira, 3 de março de 2021

Uma bela partida do Mestre Alejandro

 Nesta semana tivemos a triste notícia do falecimento de Alejandro Terehoff Gonzalez, vítima da Covid-19.

Atuante enxadrista pessoense, sempre presente nos eventos promovidos pela Academia de Xadrez Caldas Viana e pelo Clube de Xadrez Miramar. Tive a oportunidade de jogar com ele em muitas dessas competições. Uma pessoa de fácil trato, simpático e querido por todos.

Alejandro recebendo o troféu de campeão

em um dos torneios do Clube Miramar.

Ao seu lado, Zé Mário e Dutra.

Entretanto, diante do tabuleiro, ele se tornava um guerreiro. Não tinha esse negócio de trato fácil, não! Era um jogador de ataque temível. Gostava de partir logo para as “vias de fato”. A “pancadaria” corria solta! Eu mesmo passei por vários apuros ao enfrentá-lo.

Como homenagem póstuma ao Mestre Alejandro, segue a bela partida na qual ele venceu o forte enxadrista Francisco Dantas, ex-campeão paraibano. Um exemplo do seu estilo arrojado de jogar.


Alejandro Terehoff Gonzalez – Francisco Dantas

IV Master Pessoense - João Pessoa (PB)

03/08/2020


https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=TLl6805iDPbALlktvnWYxqRoW+nDfzDH2ShCxMP0YiMfsn7cvtu6beII9Vveb9gE


1.e4 c5 2.g3 Cc6 3.Bg2 Cf6 4.Cc3 d6 5.d3 e6 6.f4 Be7 7.Cf3 a6 8.0-0 0-0 9.e5

Sacrifício de peão para agilizar o desenvolvimento.

9.... dxe5 10.fxe5 Ce5 11.Ce5 Dd4+ 12.Rh1 De5 13.Bf4 Dd4 14.De2 Db4

Ou 14.... Dd8 15.Tae1, com as peças brancas ocupando excelentes posições.

15.Tab1 Bd7 16.Bc7

Cercando a dama negra. Por ser uma ameaça facilmente repelível, Dr. Fritz sugere outra possibilidade: 16.Bg5 Db6 17.Ce4 Cd5 18.Be7 Ce7 19.Df2 Dc7 20.Dc5, com igualdade.

16.... Tac8 17.Be5

Perdendo um tempo. Se a ideia original era cercar a dama, então era necessário jogar 17.Tf4, com a seguinte continuação: 17.... Tc7 18.Tb4 cxb4 19.Cd1 Tfc8, e as negras têm uma pequena vantagem por conta da iniciativa.

Assim, o lance jogado é inferior, pois a vantagem no desenvolvimento deixa de existir, e o sacrifício do peão já não oferece quaisquer compensações.

17.... Bc6 18.Bc6 Tc6 19.Tf4 Db6 20.Tbf1 Tcc8?

Então as negras se descuidam da defesa...

21.Tf6!!


… E o céu desaba sobre sua cabeça.

21.... gxf6

As negras se aferram ao material extra. Oferecia mais resistência: 21... Dc6+ 22.Ce4 Dd5 23.Dh5 Bd6 24.Tf7, com vantagem clara para as brancas.

22.Dg4 Rh8 23.Tf6

O bispo de “e5” é uma lança apontada para o coração das negras. A vantagem é decisiva.

23.... Dc6 24.Ce4 Dd5 25.Dg5

A ameaça do xeque descoberto obriga as negras a cederem material.

25.... Bd6 26.Bd6 Dg5 27.Cg5

O resto é esperneio...

27.... Tg8 28.h4 Tg6 29.Tf7 h6 30.Th7 Rg8 31.Be5 Tg5 32.Th8+ Rf7 33.hxg5 Tc6 34.g6+ Re7 35.Th7+ Pretas abandonam.

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Descanse em paz, Mestre Alejandro. 


segunda-feira, 1 de março de 2021

FPBX - Nota de Falecimento

Com tristeza, informamos o falecimento do médico neurologista, e talentoso enxadrista, de nacionalidade chilena e radicado em João Pessoa, Alejandro Terehoff Gonzales, vítima da Covid-19, que deixa esposa e dois filhos, todos também médicos. Aos seus familiares e amigos, a manifestação dos nossos sentimentos de profundo pesar.

Fernando Melo

Presidente da Federação Paraibana de Xadrez

Diretor da Confederação Brasileira de Xadrez

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Desventuras de um capivara - O Jogador e o Capivara

Peço licença ao escritor Robert Louis Stevenson, que em 1886 publicou o célebre livro “O Médico e o Monstro”, para contar uma versão diferente daquela história. A trama é bem conhecida e gira em torno do Dr. Jekyll, um médico que, cansado de sua vida pacata e querendo dar uns “rolês” sem peso na consciência, cria um “remedinho” que o transforma no Sr. Hyde, uma figura sem quaisquer escrúpulos. Acontece que o médico perde o controle sobre essas transformações, e a única forma de manter o Sr. Hyde sob rédeas curtas era tomando a poção que ele criara. Até que um dia, o remédio acaba... Não vou dar “spoiler”. Leia o livro.

Para contar os “trágicos” eventos que motivaram essa postagem, é necessário fazer uma breve contextualização.

Os torneios presenciais estão voltando, embora de uma forma ainda tímida, pois a pandemia continua a fazer mais e mais vítimas. Os organizadores vêm limitando a quantidade de vagas e adotando rigorosos protocolos.

Assim, tive a oportunidade de participar do Floripa Chess Open 2021, realizado agora em janeiro. Como sempre, a organização foi impecável e os dirigentes e árbitros foram muito exigentes em relação ao cumprimento das medidas de segurança.

Depois de um início claudicante, com uma vitória, uma derrota e um empate; encaixei uma sequência de três vitórias e fui parar na mesa 5, que fica localizada no palco do salão de jogos. Ora, aquilo lá é território de onças pintadas! O que um capivara poderia fazer naquele lugar? Para estimular sua imaginação, segue uma sugestiva foto.


Fui emparceirado com o Mestre Internacional Sturt Raven, dos EUA, uma onça pintada com 2481 de rating FIDE. Uma diferença de 400 pontos em relação ao meu! Com a alma leve, sem maiores compromissos com resultados e honrado em ter alcançando tão importante lugar, eu disse a meu companheiro de quarto que subiria ao palco cantando aquela música de Gilberto Gil: “Subo neste palco, minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê...”. Cantei não. Fiquei com vergonha.


O autor enfrentando do Mestre Internacional Sturt Raven.


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Sturt Raven - Marcello Urquiza

Floripa Chess Open 2021


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=pyUbWKgMV0p03tNk0CGpyJ/9EHPEfF5ThMCgx7b5zrfVKCbz1/NG7QYExAg0kLKs

Em que pese a enorme diferença de força, eu joguei bem e ainda lutava por um empate no final da partida. Veja o diagrama abaixo.

Jogam as negras

Dr. Fritz diz que as brancas têm vantagem. De fato, com um peão a mais, o par de bispos e o rei em ótima posição, a vantagem é clara, mas o doutor evitou afirmar que ela era decisiva. Às pretas resta a esperança de poder sacrificar uma de suas peças por um peão, na hipótese de não existirem outros no tabuleiro.

Então, um plano defensivo seria o de reduzir a quantidade de peões no tabuleiro. A partida seguiu:

45.... h4 46.f5+

As brancas evitam uma liquidação maior. Em compensação, reduzem a mobilidade de sua estrutura, já que a casa “e5” está momentaneamente bloqueada e o eventual avanço “e5” implicará em mais uma troca.

Ambos os jogadores já estavam apurados no tempo, embora minha situação fosse mais crítica.

Uma possível continuação seria 46.... Rf7 47.gxh4 gxh4 48.h3 Ch5, apesar da evidente vantagem, as brancas ainda teriam de trabalhar muito para concretizá-la.

Então aconteceu algo que só consigo explicar com a história do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. Eu joguei:

46.... Rh5??

O que o meu rei foi fazer aí? O peão “f” ficou abandonado à própria sorte, o que praticamente define o resultado da partida.

Estava apelando para passar um peão nesse setor? Se era isso, então teria de estar respaldado por uma linha concreta, que não havia. Nem tempo para calcular eu tinha.

A partida seguiu:

47. Bd4 hxg3 48.hxg3 Bd8 49.Rd6 Rg4 50.Rd7 Ba5 51. Cf6 Ch5 52.Be7 Rg3

Já atordoado, entreguei um segundo peão e, após mais alguns lances, abandonei.

********

Como a história do Dr. Jekyll pode explicar o que aconteceu? Considere que o que controlava as transformações no Sr. Hyde era o remédio que o médico havia desenvolvido. Quando ele acabou, a transformação que se seguisse seria permanente.

Fazendo um paralelo, o tempo, neste caso, era a poção que controlava a manifestação do capivara. Quando o tempo acabou, o capivara assumiu o controle e jogou um lance estapafúrdio. Uma lambança brutal.

Pois é, o capivara tarda, mas não falha.

Alguém conhece um remédio que controle esse bicho?








 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O calmante de Beth Harmon

.

(Autor desconhecido)

Tomei umas caipirinhas  e  cerveja  para  acompanhar  a apuração dos votos das eleições municipais. Nesse meio tempo, para me entreter, resolvi disputar partidas de xadrez online.

Em uma delas, a posição estava bem equilibrada. Em determinado momento, ao olhar para o teto, visualizei o tabuleiro em formato gigante sobre minha cabeça. Os movimentos seguintes se desenhavam com facilidade. Tudo fazia sentido no jogo, mas fiquei confuso com a visão inusitada e resolvi tomar mais uns goles do suco de Pitu.

Embarquei na alucinação e iniciei um forte ataque ao rei adversário...

Quando olhei novamente para cima, as peças do tabuleiro não me ajudaram. Ao contrário, começaram a cair sobre mim: a torre veio, o bispo, a rainha e até os peões deram o ar da graça e desabaram na minha cabeça...

Quando acordei, tinha levado xeque-mate, os candidatos vencedores já comemoravam em SP, assim como no Rio...

Desencantado, liguei para a farmácia e perguntei se lá havia o calmante da Beth Harmon. O farmacêutico falou:

- Bete quem?

- Da Netflix, companheiro!

- Não, não... Só com receita, senhor!

- Me manda só a dipirona e o Engov mesmo, campeão. 

Amanhã, pra sair da cama, vou ter que ter força, foco e fé!

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Prezado autor desconhecido,

Tomei conhecimento do seu texto em um grupo do Whats App. Fiquei encantado e, então, tomei a liberdade de compartilhá-lo com os leitores deste blog. Também lhe dei um título. Espero que me perdoe por isso.

Desconfio que você é de terras nordestinas, provavelmente de Pernambuco, tal é a afinidade que demonstra ter com a gloriosa Pitú.

Peço a gentileza de se identificar para que eu possa lhe dar os devidos créditos.

Do seu admirador,


Marcello Urquiza

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O infarto

Em outro dia contei sobre como abandonei o xadrez. Agora, chegou a vez de falar sobre a minha volta.

“ - Ah! Já sei! Você infartou e o doutor lhe recomendou atividades contemplativas.” Pondera um leitor mais apressado.

Deus me livre! Mesmo porque o xadrez competitivo não é muito adequado para quem tem o coração fraco. A questão do infarto será abordada no momento oportuno. Falemos primeiro sobre o retorno aos tabuleiros.

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Foi assim: à medida em que se aproximava o momento de me aposentar, eu avaliava a possibilidade de voltar a jogar. Então, quando finalmente “pendurei a chuteiras”, resolvi que … não voltaria! Temia uma recaída, pois, na juventude, estive “um tanto obcecado” pelo jogo.

Então fui procurar o que fazer para tentar afastar aquela tentação.

Fiz um curso de cervejeiro caseiro. Agora sim! Seria um mestre, só que um Mestre Cervejeiro...

Comprei um violão e um cavaquinho. Ganhei um alaúde e herdei um violino... Não teria como escapar! Finalmente aprenderia a tocar um instrumento musical.

E para não ficar vivendo só de brisa, fui trabalhar na empresa de minha filha.

Passaram-se dois anos, quando, em 2017, surgiu a oportunidade de comprar um pequeno apartamento na agradabilíssima João Pessoa. Doravante iria dividir meu tempo entre a vida pacata em Macaparana, no interior de Pernambuco, e a capital da Paraíba. Praia, barzinhos, shoppings, cinema, espetáculos musicais... uma maravilha!

Tudo ia bem, até que um dia bateu a curiosidade de saber como andava o xadrez em Jampa. Fui lá no Google.

“ - Xadrez João Pessoa”.

Ele respondeu:

“ - Inscrições abertas para o Memorial Bobby Fischer...”

Eita! A tentação ressurgiu com força total. Dessa vez, não tive forças para resistir. “Não faria mal participar, afinal o xadrez também poderia fazer parte do pacote de diversões que a cidade grande oferecia”. Essa foi a desculpa que encontrei para me justificar.

“Leve peças e relógio”, alertava o regulamento do torneio. Comprei um jogo de peças. E lá fui eu, na primeira rodada, com as mãos frias, ansiedade nas alturas, peças novinhas, um relógio analógico Cronos do tamanho de um tijolo e vagas lembranças de três décadas atrás.

Reconheço que sou um capivara, mas de uma categoria muito especial. Como você pode perceber, sou um capivara pré-histórico! Um Neochoerus sulcidens, o ancestral dos capivaras modernos. Pré-engine, pré-internet, pré-sistema London, pré-Carlsen...

E foi assim que Caíssa, numa missão arqueológica, me resgatou.

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O autor enfrentando o MF Diogo Guimarães na 4ª rodada

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Vou me abster de publicar a partida completa, para que possamos ir direto ao ponto que nos interessa: o infarto.

Depois de duas vitórias seguidas (!), na terceira rodada fui emparceirado com Mário Fiaes, forte jogador da Bahia.


Marcello Urquiza x Mário Henrique Fiaes

IX Memorial Bobby Fischer.

João Pessoa – 17/03/2018


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=sYc7CU/N0GpjxPmI5eREOw4bfhWz8PW08TMjIquXpbA9jc9cCbd/FvrNctPpqxGU

Depois de algumas escaramuças no centro do tabuleiro, a partida chegou à posição do diagrama. Dr. Fritz avalia que as chances estavam iguais.


32.Be2

As brancas buscavam reagrupar suas forças.

32.... Tc3 33.Bd3 Cd7 34.Te2

Agora, ameaçavam consolidar a posição, bloqueando a estrutura de peões das negras.

34.... Dd6?

Mas as pretas decidiram fazer uma defesa passiva do peão e, para piorar, escolheram a pior opção.

Menos mal teria sido 34.... Tc6. Mas daria a chance de as brancas bloquearem o centro. Por exemplo: 34..... Tc6 35.Dg1 Te7 36.Dd4 Td6 37.Tbe1, com jogo um pouco melhor para as brancas.

Então 34.... e5 era imprescindível, com igualdade. Uma possível linha seria: 34.... e5 35.fxe5 Ce5 36.b5 Cd3 37.Te8+ Tf8 38.Tf8+ Rf8 39.cxd3 axb5 40.Df3+ Df7 41.Df7+ Rf7 42.Tb5 Td3 43.Tb7+ , resultando em um final de torres empatado.

35.De1

Ataque duplo.

35.... Tc6 36.b5 axb5 37.Bb5 Tc5?

Outro erro, dando oportunidade para um rápido desenlace. Com 37.... Tc8, para defender a 8ª linha, as pretas poderiam oferecer maior resistência, embora a posição ainda fosse desesperadora.

38.Te6 Dc7 39.Bd7 Dd7 40.Te8+ Tf8 41.Te7 Dg4 42.Tbb7 Tc2


Seja sincero, prezado leitor, você não acha que um dos momentos mais prazerosos do xadrez é quando damos um lance inesperado e nosso adversário toma aquele susto?

43.De6+!

Mas não foi aqui que meu oponente se assustou, embora ele também não esperasse esse lance. Percebi sua expressão de alívio. Creio que ele temia 43.Tg7+ Dg7 44.Tg7+ Rg7, com vantagem decisiva para as brancas.

43.... De6 44.Tg7+

Mate em dois lances! Foi aqui. Meu adversário teve um baita sobressalto. Não tinha previsto esse lance. Mas, passado o impacto inicial, ele não se fez de rogado e continuou a partida...

44.... Rh8 45.Th7+ Rg8 46.Tbg7++

*******

Jogo terminado, um dos integrantes da delegação baiana se aproximou e disse:

“ - Olha, seu adversário tem essa postura. Ele vai até o fim. Diz que o oponente pode ter um infarto, aí então ele ganharia a partida pelo tempo.”

Cruz credo!! Ainda bem que só soube disso depois da rodada. Vai que eu estivesse em um dia sugestionável... olha a bronca!

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Sobre o que eu vinha fazendo antes de voltar a jogar? Bem, pedi demissão à minha filha; há mais de um ano que não faço cerveja; e o violão está ali num canto, empoeirando. Todos os dias ele me lança um olhar melancólico.

“ - Ah! Então você teve uma recaída, e voltou a ficar obcecado pelo xadrez.”

Não, de forma alguma. Estou tendo a oportunidade de fazer o que gosto. E isso é um grande privilégio.


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O Voo do Capivara - Da Terra dos Marechais para o mundo

Imagine a seguinte cena: você está jogando um torneio e precisa dar um pulinho no sanitário para fazer o “número 1”. Enquanto cumpre sua aliviante tarefa, extraindo o incômodo volume do joelho, você percebe a presença de Giri Anish no mictório ao lado; e no outro, nada mais, nada menos que Nakamura. O que você pensaria nessa inusitada situação?

Já respondeu? Não? Então acrescente às suas ponderações a presença de mais uma centena de GMs lá fora, no salão de jogos, dentre os quais, Magnus Carlsen!

Selfie com Carlsen

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Não foi sonho, não! Esse episódio aconteceu na vida real. Foi em Moscou, durante o Campeonato Mundial de Rápidas e Blitz, de 2019. Seu protagonista foi o CM Jayme Miranda, de Alagoas, que representava o Brasil naquela ocasião, junto com o MF Diogo Guimarães.

Jayme carimbou seu passaporte para a Rússia quando se sagrou Campeão Brasileiro de Xadrez Blitz de 2019, em Campina Grande (PB). Alíás, um torneio que foi muito disputado, com tríplice empate no final. O campeão terminou com os mesmos pontos do GM Darcy Lima e do MN Márcio Jordão, mas venceu no quesito confronto direto.

Sobre a pergunta que lhe fiz, caro leitor, também a fiz a Jayme. Ele respondeu:

- Demorou para cair a ficha de que estava no mesmo ambiente dessas feras. É uma mistura de emoções. Inicialmente, no salão de jogos, você nem acredita que está lá.”

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Jayme é um enxadrista que atua em três frentes: é um ativo jogador, dirigente e professor. Como jogador, além do título de Campeão Brasileiro de Xadrez Blitz, ele tem um respeitável portfólio de conquistas: nove vezes Campeão Alagoano, Bicampeão Pan-americano Colegial sub-21 (2001/2002), Bicampeão do Nordeste por Equipes (2013 e 2018), Vice-campeão Brasileiro Sub-20 (2003), bronze nos Jogos Universitários Brasileiros por Equipes (Fortaleza/2009), dentre outros.

Como dirigente, ele é o Presidente da Federação Alagoana de Xadrez e o Presidente da Liga Brasileira de Xadrez.

E como professor, é o técnico Desportivo de Xadrez da Universidade Federal, além de coordenar o Projeto de Xadrez Ginástica da Inteligência, o qual já atendeu a mais de 9.000 alunos em diversas cidades do estado.

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A partida que ele nos presentou foi disputada na primeira rodada do Campeonato Mundial de Rápidas. Apesar do ritmo de 10+5, ela foi muito bem jogada. Confira.

GM David Paravyan (Rússia) x CM Jayme Miranda Neto

King Salman World Rapid – Moscou - 26/12/2019


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=VvvXc494sQrl8XE1r2n6XIqHSGPCXAPJGy/tKEae38elvL4uM3b6v+gz2RHctd+0

1.e4 c6 2.d4 d5 3.e5 Bf5 4.Bd3

Uma linha inusual. Aparentemente, a troca dos bispos dá uma caráter mais posicional à partida. 4.Cf3 e6 5.Be2 é o mais comum.

4.... Bd3 5.Dd3 e6 6.Ce2 Cd7 7.Cd2 Ce7 8.Cf3 Dc7 9.0-0 c5 10.c3

E a posição ficou parecendo com a de uma  da Defesa Francesa, mas sem o incômodo bispo de casas de cores brancas.

10.... Cf5

10.... Cc6 estaria mais de acordo com o “espírito francês”, com jogo igual. Em “c6” o cavalo teria melhores possibilidades do que em “f5”, mas acredito que a essa altura Jayme já tinha definido seu plano. Vejamos.

11.Bd2 c4 12.Dc2 h5 13.Cg3 g6 14.Bg5 Be7 15.Cf5 gxf5 16.Be7 Re7

Se o plano das pretas era bloquear a posição, então ele foi bem sucedido. Mas Dr. Fritz avalia que a posição está melhor para as brancas, apesar de que é difícil encontrar uma forma de romper o bloqueio.

17.Da4 Rf8 18.Da3 Rg7 19.Cg5

Ameaçando 20.De7. Dr. Fritz diz que as brancas deveriam ter buscado um plano de mais longo prazo, e não uma ameaça tão direta e facilmente defensável. Ele sugere a seguinte linha, já especulando com o único ponto de ruptura da posição: 19.b3 Cb6 20.h4 Cc8 21.Dc1 Th6 22.Cg5 Tg6 23.De3 Ce7, com vantagem.

19.... Cf8 20.b3


Uma curiosidade: a única diferença dessa posição para a da linha que inicia com 19.b3 é a colocação dos cavalos. Enquanto na anterior, Dr. Fritz dava vantagem às brancas; aqui ele disse que a posição está igual. Por quê? Minha hipótese: Cg5 foi um lance que permitiu às negras, além de se defender da ameaça direta, ganhar um tempo para melhorar a posição do seu cavalo. E você, o que acha?

20.... Cg6 21.Tab1 b6 22.Tfc1 Thc8

Havia uma interessante possibilidade de infiltração do cavalo negro: 22.... Cf4 23.Tc2 Cd3, apesar de que a posição continuaria com possibilidades iguais.

23.Db2 De7 24.Dd2 Tc7 25.f4 Tac8 26.De3

Aqui, Dr. Fritz avaliou que a ruptura já não era interessante para as brancas. Então indicou 26.b4 como a melhor alternativa. Note que, apesar da igualdade, a iniciativa do jogo está passando para as negras.

26..... Th8

Uma precaução desnecessária. 26.... cxb3 27.Tb3 Tc4, e seriam as brancas que teriam de se defender.

27.Cf3 Da3 28.Cd2 b5 29.bxc4?!

Buscando o controle da coluna “b”, mas...

29.... bxc4 30.Tc2 Tc6! 31.Tcb2 Tb6

são as negras que ameaçam dominar a coluna. Vantagem para as negras.

32.Tb6 axb6 33.h3 Da2 34.Tb6 Dc2


As negras têm vantagem decisiva. Observe que o jogo das brancas está paralisado. Também é verdade que essa vantagem só poderia ser materializada através de pacientes manobras. Por exemplo: 35.Tb1 Ta8 36.Tf1 Ta3 37.Tf3 Rf8 38.Rh2 h4 39.Cf1 Ta2 40.Dg1 Dc1 41.Rh1 Tc2, etc.

35.Tb1

Nesse momento, Paravyan propôs empate. O GM Rafael Leitão tem um conselho para essas situações: se um jogador com muito mais rating oferecer empate, faça o seguinte: recuse imediatamente e procure mate forçado, ganho de dama ou coisa semelhante”.

É claro que Jayme percebeu que sua posição era superior, mas com apenas um minuto de tempo, contra sete do seu adversário, preferiu não se arriscar.

35.... Empate