quarta-feira, 3 de março de 2021

Uma bela partida do Mestre Alejandro

 Nesta semana tivemos a triste notícia do falecimento de Alejandro Terehoff Gonzalez, vítima da Covid-19.

Atuante enxadrista pessoense, sempre presente nos eventos promovidos pela Academia de Xadrez Caldas Viana e pelo Clube de Xadrez Miramar. Tive a oportunidade de jogar com ele em muitas dessas competições. Uma pessoa de fácil trato, simpático e querido por todos.

Alejandro recebendo o troféu de campeão

em um dos torneios do Clube Miramar.

Ao seu lado, Zé Mário e Dutra.

Entretanto, diante do tabuleiro, ele se tornava um guerreiro. Não tinha esse negócio de trato fácil, não! Era um jogador de ataque temível. Gostava de partir logo para as “vias de fato”. A “pancadaria” corria solta! Eu mesmo passei por vários apuros ao enfrentá-lo.

Como homenagem póstuma ao Mestre Alejandro, segue a bela partida na qual ele venceu o forte enxadrista Francisco Dantas, ex-campeão paraibano. Um exemplo do seu estilo arrojado de jogar.


Alejandro Terehoff Gonzalez – Francisco Dantas

IV Master Pessoense - João Pessoa (PB)

03/08/2020


https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=TLl6805iDPbALlktvnWYxqRoW+nDfzDH2ShCxMP0YiMfsn7cvtu6beII9Vveb9gE


1.e4 c5 2.g3 Cc6 3.Bg2 Cf6 4.Cc3 d6 5.d3 e6 6.f4 Be7 7.Cf3 a6 8.0-0 0-0 9.e5

Sacrifício de peão para agilizar o desenvolvimento.

9.... dxe5 10.fxe5 Ce5 11.Ce5 Dd4+ 12.Rh1 De5 13.Bf4 Dd4 14.De2 Db4

Ou 14.... Dd8 15.Tae1, com as peças brancas ocupando excelentes posições.

15.Tab1 Bd7 16.Bc7

Cercando a dama negra. Por ser uma ameaça facilmente repelível, Dr. Fritz sugere outra possibilidade: 16.Bg5 Db6 17.Ce4 Cd5 18.Be7 Ce7 19.Df2 Dc7 20.Dc5, com igualdade.

16.... Tac8 17.Be5

Perdendo um tempo. Se a ideia original era cercar a dama, então era necessário jogar 17.Tf4, com a seguinte continuação: 17.... Tc7 18.Tb4 cxb4 19.Cd1 Tfc8, e as negras têm uma pequena vantagem por conta da iniciativa.

Assim, o lance jogado é inferior, pois a vantagem no desenvolvimento deixa de existir, e o sacrifício do peão já não oferece quaisquer compensações.

17.... Bc6 18.Bc6 Tc6 19.Tf4 Db6 20.Tbf1 Tcc8?

Então as negras se descuidam da defesa...

21.Tf6!!


… E o céu desaba sobre sua cabeça.

21.... gxf6

As negras se aferram ao material extra. Oferecia mais resistência: 21... Dc6+ 22.Ce4 Dd5 23.Dh5 Bd6 24.Tf7, com vantagem clara para as brancas.

22.Dg4 Rh8 23.Tf6

O bispo de “e5” é uma lança apontada para o coração das negras. A vantagem é decisiva.

23.... Dc6 24.Ce4 Dd5 25.Dg5

A ameaça do xeque descoberto obriga as negras a cederem material.

25.... Bd6 26.Bd6 Dg5 27.Cg5

O resto é esperneio...

27.... Tg8 28.h4 Tg6 29.Tf7 h6 30.Th7 Rg8 31.Be5 Tg5 32.Th8+ Rf7 33.hxg5 Tc6 34.g6+ Re7 35.Th7+ Pretas abandonam.

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Descanse em paz, Mestre Alejandro. 


segunda-feira, 1 de março de 2021

FPBX - Nota de Falecimento

Com tristeza, informamos o falecimento do médico neurologista, e talentoso enxadrista, de nacionalidade chilena e radicado em João Pessoa, Alejandro Terehoff Gonzales, vítima da Covid-19, que deixa esposa e dois filhos, todos também médicos. Aos seus familiares e amigos, a manifestação dos nossos sentimentos de profundo pesar.

Fernando Melo

Presidente da Federação Paraibana de Xadrez

Diretor da Confederação Brasileira de Xadrez

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Desventuras de um capivara - O Jogador e o Capivara

Peço licença ao escritor Robert Louis Stevenson, que em 1886 publicou o célebre livro “O Médico e o Monstro”, para contar uma versão diferente daquela história. A trama é bem conhecida e gira em torno do Dr. Jekyll, um médico que, cansado de sua vida pacata e querendo dar uns “rolês” sem peso na consciência, cria um “remedinho” que o transforma no Sr. Hyde, uma figura sem quaisquer escrúpulos. Acontece que o médico perde o controle sobre essas transformações, e a única forma de manter o Sr. Hyde sob rédeas curtas era tomando a poção que ele criara. Até que um dia, o remédio acaba... Não vou dar “spoiler”. Leia o livro.

Para contar os “trágicos” eventos que motivaram essa postagem, é necessário fazer uma breve contextualização.

Os torneios presenciais estão voltando, embora de uma forma ainda tímida, pois a pandemia continua a fazer mais e mais vítimas. Os organizadores vêm limitando a quantidade de vagas e adotando rigorosos protocolos.

Assim, tive a oportunidade de participar do Floripa Chess Open 2021, realizado agora em janeiro. Como sempre, a organização foi impecável e os dirigentes e árbitros foram muito exigentes em relação ao cumprimento das medidas de segurança.

Depois de um início claudicante, com uma vitória, uma derrota e um empate; encaixei uma sequência de três vitórias e fui parar na mesa 5, que fica localizada no palco do salão de jogos. Ora, aquilo lá é território de onças pintadas! O que um capivara poderia fazer naquele lugar? Para estimular sua imaginação, segue uma sugestiva foto.


Fui emparceirado com o Mestre Internacional Sturt Raven, dos EUA, uma onça pintada com 2481 de rating FIDE. Uma diferença de 400 pontos em relação ao meu! Com a alma leve, sem maiores compromissos com resultados e honrado em ter alcançando tão importante lugar, eu disse a meu companheiro de quarto que subiria ao palco cantando aquela música de Gilberto Gil: “Subo neste palco, minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê...”. Cantei não. Fiquei com vergonha.


O autor enfrentando do Mestre Internacional Sturt Raven.


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Sturt Raven - Marcello Urquiza

Floripa Chess Open 2021


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=pyUbWKgMV0p03tNk0CGpyJ/9EHPEfF5ThMCgx7b5zrfVKCbz1/NG7QYExAg0kLKs

Em que pese a enorme diferença de força, eu joguei bem e ainda lutava por um empate no final da partida. Veja o diagrama abaixo.

Jogam as negras

Dr. Fritz diz que as brancas têm vantagem. De fato, com um peão a mais, o par de bispos e o rei em ótima posição, a vantagem é clara, mas o doutor evitou afirmar que ela era decisiva. Às pretas resta a esperança de poder sacrificar uma de suas peças por um peão, na hipótese de não existirem outros no tabuleiro.

Então, um plano defensivo seria o de reduzir a quantidade de peões no tabuleiro. A partida seguiu:

45.... h4 46.f5+

As brancas evitam uma liquidação maior. Em compensação, reduzem a mobilidade de sua estrutura, já que a casa “e5” está momentaneamente bloqueada e o eventual avanço “e5” implicará em mais uma troca.

Ambos os jogadores já estavam apurados no tempo, embora minha situação fosse mais crítica.

Uma possível continuação seria 46.... Rf7 47.gxh4 gxh4 48.h3 Ch5, apesar da evidente vantagem, as brancas ainda teriam de trabalhar muito para concretizá-la.

Então aconteceu algo que só consigo explicar com a história do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. Eu joguei:

46.... Rh5??

O que o meu rei foi fazer aí? O peão “f” ficou abandonado à própria sorte, o que praticamente define o resultado da partida.

Estava apelando para passar um peão nesse setor? Se era isso, então teria de estar respaldado por uma linha concreta, que não havia. Nem tempo para calcular eu tinha.

A partida seguiu:

47. Bd4 hxg3 48.hxg3 Bd8 49.Rd6 Rg4 50.Rd7 Ba5 51. Cf6 Ch5 52.Be7 Rg3

Já atordoado, entreguei um segundo peão e, após mais alguns lances, abandonei.

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Como a história do Dr. Jekyll pode explicar o que aconteceu? Considere que o que controlava as transformações no Sr. Hyde era o remédio que o médico havia desenvolvido. Quando ele acabou, a transformação que se seguisse seria permanente.

Fazendo um paralelo, o tempo, neste caso, era a poção que controlava a manifestação do capivara. Quando o tempo acabou, o capivara assumiu o controle e jogou um lance estapafúrdio. Uma lambança brutal.

Pois é, o capivara tarda, mas não falha.

Alguém conhece um remédio que controle esse bicho?








 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O calmante de Beth Harmon

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(Autor desconhecido)

Tomei umas caipirinhas  e  cerveja  para  acompanhar  a apuração dos votos das eleições municipais. Nesse meio tempo, para me entreter, resolvi disputar partidas de xadrez online.

Em uma delas, a posição estava bem equilibrada. Em determinado momento, ao olhar para o teto, visualizei o tabuleiro em formato gigante sobre minha cabeça. Os movimentos seguintes se desenhavam com facilidade. Tudo fazia sentido no jogo, mas fiquei confuso com a visão inusitada e resolvi tomar mais uns goles do suco de Pitu.

Embarquei na alucinação e iniciei um forte ataque ao rei adversário...

Quando olhei novamente para cima, as peças do tabuleiro não me ajudaram. Ao contrário, começaram a cair sobre mim: a torre veio, o bispo, a rainha e até os peões deram o ar da graça e desabaram na minha cabeça...

Quando acordei, tinha levado xeque-mate, os candidatos vencedores já comemoravam em SP, assim como no Rio...

Desencantado, liguei para a farmácia e perguntei se lá havia o calmante da Beth Harmon. O farmacêutico falou:

- Bete quem?

- Da Netflix, companheiro!

- Não, não... Só com receita, senhor!

- Me manda só a dipirona e o Engov mesmo, campeão. 

Amanhã, pra sair da cama, vou ter que ter força, foco e fé!

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Prezado autor desconhecido,

Tomei conhecimento do seu texto em um grupo do Whats App. Fiquei encantado e, então, tomei a liberdade de compartilhá-lo com os leitores deste blog. Também lhe dei um título. Espero que me perdoe por isso.

Desconfio que você é de terras nordestinas, provavelmente de Pernambuco, tal é a afinidade que demonstra ter com a gloriosa Pitú.

Peço a gentileza de se identificar para que eu possa lhe dar os devidos créditos.

Do seu admirador,


Marcello Urquiza

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O infarto

Em outro dia contei sobre como abandonei o xadrez. Agora, chegou a vez de falar sobre a minha volta.

“ - Ah! Já sei! Você infartou e o doutor lhe recomendou atividades contemplativas.” Pondera um leitor mais apressado.

Deus me livre! Mesmo porque o xadrez competitivo não é muito adequado para quem tem o coração fraco. A questão do infarto será abordada no momento oportuno. Falemos primeiro sobre o retorno aos tabuleiros.

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Foi assim: à medida em que se aproximava o momento de me aposentar, eu avaliava a possibilidade de voltar a jogar. Então, quando finalmente “pendurei a chuteiras”, resolvi que … não voltaria! Temia uma recaída, pois, na juventude, estive “um tanto obcecado” pelo jogo.

Então fui procurar o que fazer para tentar afastar aquela tentação.

Fiz um curso de cervejeiro caseiro. Agora sim! Seria um mestre, só que um Mestre Cervejeiro...

Comprei um violão e um cavaquinho. Ganhei um alaúde e herdei um violino... Não teria como escapar! Finalmente aprenderia a tocar um instrumento musical.

E para não ficar vivendo só de brisa, fui trabalhar na empresa de minha filha.

Passaram-se dois anos, quando, em 2017, surgiu a oportunidade de comprar um pequeno apartamento na agradabilíssima João Pessoa. Doravante iria dividir meu tempo entre a vida pacata em Macaparana, no interior de Pernambuco, e a capital da Paraíba. Praia, barzinhos, shoppings, cinema, espetáculos musicais... uma maravilha!

Tudo ia bem, até que um dia bateu a curiosidade de saber como andava o xadrez em Jampa. Fui lá no Google.

“ - Xadrez João Pessoa”.

Ele respondeu:

“ - Inscrições abertas para o Memorial Bobby Fischer...”

Eita! A tentação ressurgiu com força total. Dessa vez, não tive forças para resistir. “Não faria mal participar, afinal o xadrez também poderia fazer parte do pacote de diversões que a cidade grande oferecia”. Essa foi a desculpa que encontrei para me justificar.

“Leve peças e relógio”, alertava o regulamento do torneio. Comprei um jogo de peças. E lá fui eu, na primeira rodada, com as mãos frias, ansiedade nas alturas, peças novinhas, um relógio analógico Cronos do tamanho de um tijolo e vagas lembranças de três décadas atrás.

Reconheço que sou um capivara, mas de uma categoria muito especial. Como você pode perceber, sou um capivara pré-histórico! Um Neochoerus sulcidens, o ancestral dos capivaras modernos. Pré-engine, pré-internet, pré-sistema London, pré-Carlsen...

E foi assim que Caíssa, numa missão arqueológica, me resgatou.

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O autor enfrentando o MF Diogo Guimarães na 4ª rodada

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Vou me abster de publicar a partida completa, para que possamos ir direto ao ponto que nos interessa: o infarto.

Depois de duas vitórias seguidas (!), na terceira rodada fui emparceirado com Mário Fiaes, forte jogador da Bahia.


Marcello Urquiza x Mário Henrique Fiaes

IX Memorial Bobby Fischer.

João Pessoa – 17/03/2018


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=sYc7CU/N0GpjxPmI5eREOw4bfhWz8PW08TMjIquXpbA9jc9cCbd/FvrNctPpqxGU

Depois de algumas escaramuças no centro do tabuleiro, a partida chegou à posição do diagrama. Dr. Fritz avalia que as chances estavam iguais.


32.Be2

As brancas buscavam reagrupar suas forças.

32.... Tc3 33.Bd3 Cd7 34.Te2

Agora, ameaçavam consolidar a posição, bloqueando a estrutura de peões das negras.

34.... Dd6?

Mas as pretas decidiram fazer uma defesa passiva do peão e, para piorar, escolheram a pior opção.

Menos mal teria sido 34.... Tc6. Mas daria a chance de as brancas bloquearem o centro. Por exemplo: 34..... Tc6 35.Dg1 Te7 36.Dd4 Td6 37.Tbe1, com jogo um pouco melhor para as brancas.

Então 34.... e5 era imprescindível, com igualdade. Uma possível linha seria: 34.... e5 35.fxe5 Ce5 36.b5 Cd3 37.Te8+ Tf8 38.Tf8+ Rf8 39.cxd3 axb5 40.Df3+ Df7 41.Df7+ Rf7 42.Tb5 Td3 43.Tb7+ , resultando em um final de torres empatado.

35.De1

Ataque duplo.

35.... Tc6 36.b5 axb5 37.Bb5 Tc5?

Outro erro, dando oportunidade para um rápido desenlace. Com 37.... Tc8, para defender a 8ª linha, as pretas poderiam oferecer maior resistência, embora a posição ainda fosse desesperadora.

38.Te6 Dc7 39.Bd7 Dd7 40.Te8+ Tf8 41.Te7 Dg4 42.Tbb7 Tc2


Seja sincero, prezado leitor, você não acha que um dos momentos mais prazerosos do xadrez é quando damos um lance inesperado e nosso adversário toma aquele susto?

43.De6+!

Mas não foi aqui que meu oponente se assustou, embora ele também não esperasse esse lance. Percebi sua expressão de alívio. Creio que ele temia 43.Tg7+ Dg7 44.Tg7+ Rg7, com vantagem decisiva para as brancas.

43.... De6 44.Tg7+

Mate em dois lances! Foi aqui. Meu adversário teve um baita sobressalto. Não tinha previsto esse lance. Mas, passado o impacto inicial, ele não se fez de rogado e continuou a partida...

44.... Rh8 45.Th7+ Rg8 46.Tbg7++

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Jogo terminado, um dos integrantes da delegação baiana se aproximou e disse:

“ - Olha, seu adversário tem essa postura. Ele vai até o fim. Diz que o oponente pode ter um infarto, aí então ele ganharia a partida pelo tempo.”

Cruz credo!! Ainda bem que só soube disso depois da rodada. Vai que eu estivesse em um dia sugestionável... olha a bronca!

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Sobre o que eu vinha fazendo antes de voltar a jogar? Bem, pedi demissão à minha filha; há mais de um ano que não faço cerveja; e o violão está ali num canto, empoeirando. Todos os dias ele me lança um olhar melancólico.

“ - Ah! Então você teve uma recaída, e voltou a ficar obcecado pelo xadrez.”

Não, de forma alguma. Estou tendo a oportunidade de fazer o que gosto. E isso é um grande privilégio.


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O Voo do Capivara - Da Terra dos Marechais para o mundo

Imagine a seguinte cena: você está jogando um torneio e precisa dar um pulinho no sanitário para fazer o “número 1”. Enquanto cumpre sua aliviante tarefa, extraindo o incômodo volume do joelho, você percebe a presença de Giri Anish no mictório ao lado; e no outro, nada mais, nada menos que Nakamura. O que você pensaria nessa inusitada situação?

Já respondeu? Não? Então acrescente às suas ponderações a presença de mais uma centena de GMs lá fora, no salão de jogos, dentre os quais, Magnus Carlsen!

Selfie com Carlsen

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Não foi sonho, não! Esse episódio aconteceu na vida real. Foi em Moscou, durante o Campeonato Mundial de Rápidas e Blitz, de 2019. Seu protagonista foi o CM Jayme Miranda, de Alagoas, que representava o Brasil naquela ocasião, junto com o MF Diogo Guimarães.

Jayme carimbou seu passaporte para a Rússia quando se sagrou Campeão Brasileiro de Xadrez Blitz de 2019, em Campina Grande (PB). Alíás, um torneio que foi muito disputado, com tríplice empate no final. O campeão terminou com os mesmos pontos do GM Darcy Lima e do MN Márcio Jordão, mas venceu no quesito confronto direto.

Sobre a pergunta que lhe fiz, caro leitor, também a fiz a Jayme. Ele respondeu:

- Demorou para cair a ficha de que estava no mesmo ambiente dessas feras. É uma mistura de emoções. Inicialmente, no salão de jogos, você nem acredita que está lá.”

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Jayme é um enxadrista que atua em três frentes: é um ativo jogador, dirigente e professor. Como jogador, além do título de Campeão Brasileiro de Xadrez Blitz, ele tem um respeitável portfólio de conquistas: nove vezes Campeão Alagoano, Bicampeão Pan-americano Colegial sub-21 (2001/2002), Bicampeão do Nordeste por Equipes (2013 e 2018), Vice-campeão Brasileiro Sub-20 (2003), bronze nos Jogos Universitários Brasileiros por Equipes (Fortaleza/2009), dentre outros.

Como dirigente, ele é o Presidente da Federação Alagoana de Xadrez e o Presidente da Liga Brasileira de Xadrez.

E como professor, é o técnico Desportivo de Xadrez da Universidade Federal, além de coordenar o Projeto de Xadrez Ginástica da Inteligência, o qual já atendeu a mais de 9.000 alunos em diversas cidades do estado.

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A partida que ele nos presentou foi disputada na primeira rodada do Campeonato Mundial de Rápidas. Apesar do ritmo de 10+5, ela foi muito bem jogada. Confira.

GM David Paravyan (Rússia) x CM Jayme Miranda Neto

King Salman World Rapid – Moscou - 26/12/2019


Link da partida:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=VvvXc494sQrl8XE1r2n6XIqHSGPCXAPJGy/tKEae38elvL4uM3b6v+gz2RHctd+0

1.e4 c6 2.d4 d5 3.e5 Bf5 4.Bd3

Uma linha inusual. Aparentemente, a troca dos bispos dá uma caráter mais posicional à partida. 4.Cf3 e6 5.Be2 é o mais comum.

4.... Bd3 5.Dd3 e6 6.Ce2 Cd7 7.Cd2 Ce7 8.Cf3 Dc7 9.0-0 c5 10.c3

E a posição ficou parecendo com a de uma  da Defesa Francesa, mas sem o incômodo bispo de casas de cores brancas.

10.... Cf5

10.... Cc6 estaria mais de acordo com o “espírito francês”, com jogo igual. Em “c6” o cavalo teria melhores possibilidades do que em “f5”, mas acredito que a essa altura Jayme já tinha definido seu plano. Vejamos.

11.Bd2 c4 12.Dc2 h5 13.Cg3 g6 14.Bg5 Be7 15.Cf5 gxf5 16.Be7 Re7

Se o plano das pretas era bloquear a posição, então ele foi bem sucedido. Mas Dr. Fritz avalia que a posição está melhor para as brancas, apesar de que é difícil encontrar uma forma de romper o bloqueio.

17.Da4 Rf8 18.Da3 Rg7 19.Cg5

Ameaçando 20.De7. Dr. Fritz diz que as brancas deveriam ter buscado um plano de mais longo prazo, e não uma ameaça tão direta e facilmente defensável. Ele sugere a seguinte linha, já especulando com o único ponto de ruptura da posição: 19.b3 Cb6 20.h4 Cc8 21.Dc1 Th6 22.Cg5 Tg6 23.De3 Ce7, com vantagem.

19.... Cf8 20.b3


Uma curiosidade: a única diferença dessa posição para a da linha que inicia com 19.b3 é a colocação dos cavalos. Enquanto na anterior, Dr. Fritz dava vantagem às brancas; aqui ele disse que a posição está igual. Por quê? Minha hipótese: Cg5 foi um lance que permitiu às negras, além de se defender da ameaça direta, ganhar um tempo para melhorar a posição do seu cavalo. E você, o que acha?

20.... Cg6 21.Tab1 b6 22.Tfc1 Thc8

Havia uma interessante possibilidade de infiltração do cavalo negro: 22.... Cf4 23.Tc2 Cd3, apesar de que a posição continuaria com possibilidades iguais.

23.Db2 De7 24.Dd2 Tc7 25.f4 Tac8 26.De3

Aqui, Dr. Fritz avaliou que a ruptura já não era interessante para as brancas. Então indicou 26.b4 como a melhor alternativa. Note que, apesar da igualdade, a iniciativa do jogo está passando para as negras.

26..... Th8

Uma precaução desnecessária. 26.... cxb3 27.Tb3 Tc4, e seriam as brancas que teriam de se defender.

27.Cf3 Da3 28.Cd2 b5 29.bxc4?!

Buscando o controle da coluna “b”, mas...

29.... bxc4 30.Tc2 Tc6! 31.Tcb2 Tb6

são as negras que ameaçam dominar a coluna. Vantagem para as negras.

32.Tb6 axb6 33.h3 Da2 34.Tb6 Dc2


As negras têm vantagem decisiva. Observe que o jogo das brancas está paralisado. Também é verdade que essa vantagem só poderia ser materializada através de pacientes manobras. Por exemplo: 35.Tb1 Ta8 36.Tf1 Ta3 37.Tf3 Rf8 38.Rh2 h4 39.Cf1 Ta2 40.Dg1 Dc1 41.Rh1 Tc2, etc.

35.Tb1

Nesse momento, Paravyan propôs empate. O GM Rafael Leitão tem um conselho para essas situações: se um jogador com muito mais rating oferecer empate, faça o seguinte: recuse imediatamente e procure mate forçado, ganho de dama ou coisa semelhante”.

É claro que Jayme percebeu que sua posição era superior, mas com apenas um minuto de tempo, contra sete do seu adversário, preferiu não se arriscar.

35.... Empate

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Voo do Capivara – A história do Gambito Urquiza

Você tem razão, meu incrédulo leitor, esse gambito não existe. A história, sim; mas o gambito, não. Aliás, eu sou uma lástima em teoria de abertura. Reconheço a minha incapacidade em desenvolver tais estudos. Porém só deixarei para falar do tal gambito mais adiante. Então mantenha-se sereno, como a simpática capivara da foto, enquanto tento encher linguiça com outros assuntos.


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Teve um período em que priorizei o xadrez por correspondência. Foi numa época em que a internet ainda não era popular, e que os programas de computadores eram adversários fracos. Portanto, já faz um tempinho...

Foi quando vim trabalhar no interior. Início de carreira, dinheiro curto, distância para os grandes centros, torneios com rodadas no meio da semana. Tudo isso dificultava a minha participação em competições presenciais. Depois vieram a esposa e os filhos... então a coisa complicou de vez.

Dessa forma, fui me envolvendo cada vez mais com o xadrez postal.

As partidas duravam meses. Era uma ida e vinda interminável de aerogramas. Eu comprava blocos dessas cartas pré-franqueadas. E ainda tínhamos de guardar as que recebíamos até o final do respectivo torneio. As pastas ficavam abarrotadas.

Havia pouca interação entre os jogadores, salvo uma breve apresentação no primeiro contato. O foco era o xadrez, principalmente para aqueles que jogavam muitos torneios, como era o meu caso. Alguns de nós até providenciavam a confecção de carimbos, seja para a transmissão dos lances, ou até para que não precisássemos escrever nosso próprio endereço. Tudo para racionalizar a atividade.

Mas alguns também gostavam de socializar. Eram raros, mas existiam. Lembro-me de um jogador de Goiânia (GO). O cidadão escrevia uma lauda equivalente a uma folha de papel ofício! Até tentei retribuir. Mas responder aquela carta era mais difícil do que analisar os vários lances que me chegavam todos os dias. Então fui diminuindo o tamanho da minha missiva, até que ele se chateou e disse que, em face da pouca atenção que eu estava dando aos seus escritos, a partir daquele momento se limitaria a jogar xadrez. Ufa! Foi um alívio.

Mas nada substituía as emoções proporcionadas pelo xadrez presencial. Então eu buscava suprir essa carência com a participação em mais e mais torneios postais. Eram muitos lances que tinha de responder diariamente. Chegava do trabalho, brincava um pouco com os meninos, dava outro tanto de atenção à esposa, e logo ia analisar os jogos, até altas horas.

Nessa balada, consegui me classificar para as semifinais dos dois mais importantes torneios do Clube de Xadrez Epistolar Brasileiro (CXEB): o Campeonato Brasileiro e a Taça Brasil. E estava indo até bem. As partidas já estavam no meio-jogo, e eu vislumbrava a possibilidade de me classificar para a final de pelo menos um deles.

Mas eu não me limitava a jogar apenas esses. Ainda tinham uns torneios por categoria, outros temáticos, e até um internacional. Então, um dia, travei. Não conseguia responder mais nada. Quem já jogou “pinball”, sabe que não se deve sacudir a máquina com muita violência, pois ela pode dar “tilt” e travar. E foi assim: deu “tilt” no meu juízo.

Naquele momento, reconheci que não já era mais possível continuar com o xadrez. Peguei meus livros, materiais, planilhas e tudo o mais relacionado ao jogo e coloquei numa caixa que, tal qual uma cápsula do tempo, só veio a ser aberta vinte e sete anos depois.

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A história do gambito começou quando, em novembro de 1990, teve início um torneio da Categoria Especial (TC-E) do CXEB. Dentre os meus adversários, constava o nome do Mestre Fernando Melo. Aliás, a partida que joguei com ele, naquela ocasião, é uma das minhas preferidas. Precisei de muita paciência para romper a sólida posição defensiva que ele montou.

Melo era um dos correspondentes que  gostavam de interagir, mas de uma forma moderada. Certo dia, ele me informou que estava editando um boletim que cantava loas às virtudes da Defesa Francesa, da qual era aficionado. Perguntou se eu gostaria de recebê-lo. Aceitei de bom grado, pois aquela defesa também tinha sido a minha preferida por muito tempo.

Numa das edições, ele convidou os assinantes que estivessem jogando alguma linha específica da Francesa, com bons resultados, para compartilhá-la com os demais leitores.

Mexendo nos meus velhos Informadores, eu havia encontrado uma interessante linha da Variante Tarrasch. Já a tinha usado três vezes, com cem por cento de aproveitamento. Fiz algumas análises e mandei para Fernando. Talvez ele aproveitasse alguma das partidas...

Porém ele fez mais... Publicou uma matéria de página inteira com todas as partidas, duas deles comentadas, com o título de “O Gambito Urquiza”! (*)

Ora, o tal gambito não é meu coisíssima nenhuma. Mas tomei parte de uma história que carrego com muito carinho. E que bom que o xadrez nos proporciona esses momentos.

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Para aqueles que estão curiosos, segue uma das partidas.

Marcello Urquiza x Ivan Marques da Silva

IX Campeonato Brasileiro Individual – Fase Preliminar

15/03/1990 a 09/11/1990

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=ZKDzot0SG/USK+jAIEOB7H8AFtoa93lR5yMKA6zj7BxvsmO3qCaqyvzXcDtUUJTT

1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cd2 Cf6 4.e5 Cfd7 5.Bd3 c5 6.c3 Cc6 7.Ce2 cxd4 8.cxd4 Db6 9.Cf3 f6 10.0-0

Eis o gambito: sacrifício de peão para tentar um ataque ao rei preto, que permanece no centro do tabuleiro.

A linha mais jogada é 10.exf6 Cf6 11.0-0 Bd6 12.Cc3 0-0, etc.

10.... fxe5 11.dxe5 Cde5

Numa das partidas citadas no texto, meu adversário recusou a oferta, mas perdeu rapidamente depois de 11.... Be7 12.Cf4 Cc5 13.Be3 Db2?! 14.Bc5 Bc5 15.Tb1 Da3 16.Cg5 Re7 17.Dh5 Ce5 18.C5e6 Cd3 19.Dg5+ Re8 20.Dd8+ As pretas abandonaram (Marcello Urquiza x Otávio Fonseca – correspondência - 1989).

12.Ce5 Ce5 13.Cf4

Esse é o lance que “justifica” o sacrifício. A possibilidade do xeque em h5 causa algum desconforto às pretas, mas as chances são iguais frente a uma defesa correta.

A outra possibilidade é 13.Be3, pois as pretas não podem tomar o peão de b2.

13.... Cd3 14.Cd3 Bd6

Na outra partida, as pretas jogaram 14.... g6 15.Be3 d5?! 16.Da4+?! Bd7 17.Dd4 Dd4 18.Bd4, com o jogo um pouco melhor para as brancas. Mas 16.Ce5! teria  dado uma grande vantagem.

15.Dh5+ g6 16.Dh6 Bf8

Teria sido melhor 16.... Dd4 17.Td1 Dg4 18.Te1 Dh5, com jogo igual.

17.Df4 Bg7 18.Be3

Era mais forte 18.Ce5 Dc7 19.Te1 a6 20.b3 Tf8 21.Dg3 Tf5 22.Bb2, com jogo melhor. Mas as brancas ainda mantiveram uma leve vantagem.

18.... Da6 19.Tfd1 Bd7

As pretas necessitavam resolver o problema do rei no centro do tabuleiro com 19.... Dc4 20.Dd6 Da6 21.Db4 Dc4 22.Dd2 0-0, embora as brancas continuassem com o jogo melhor.

20.Cc5 Dc6 21.Tac1 Bb2? 

Perdendo a última oportunidade de rocar. 21.... e5 22.Db4 0-0 23.Db3, apesar de que ainda estariam sob forte pressão.

Com o rei no centro e várias linhas abertas, as negras ficaram perdidas. Veremos como as brancas realizaram uma série de manobras, principalmente com a dama, que culminaram com a invasão da posição.

22.Cd7 Dd7 23.Tc7 g5 24.Dg3 Da4 25.Df3 Bf6 26.Dh5+ Rd8 27.Tdc1 De8 28.Dg5 Tf8

28.... Bg5 29.Bg5+ De7, não traria alívio.

29.Dg3 Tf7

29.... e5 30.Dg4.

30.Dd6+ Pretas abandonaram

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(*) Na planilha de uma das partidas citadas no texto, consta uma anotação feita à mão: “Ataque Urquiza”. Então fiquei em dúvida se o titulo da matéria que Fernando publicou era “Gambito” ou “Ataque”. Usei gambito neste texto, pois foi o primeiro termo que me veio à memória.






A Paraíba tem um novo Mestre Nacional

 

MN João Tejo

Campeão Brasileiro de Xadrez Seniores +65 online


A Confederação Brasileira de Xadrez promoveu o Campeonato Brasileiro de Xadrez Seniores. Este ano, ele teve o formato "online". A competição foi jogada em setembro e foi subdividida em Seniores+50 e Seniores+65 (absoluto e feminino). O tempo de jogo foi de 10 minutos.

A Paraíba, que contou com vários representantes, fez bonito no Seniores+65! João Tejo, de Campina Grande, que tinha como meta apenas obter o título de Mestre Nacional, também conquistou o título de campeão do torneio absoluto.

Joca, como é carinhosamente chamado por seus parceiros do Clube de Xadrez de Campina Grande, é aficionado do Xadrez Blitz e um dos promotores do torneio que é realizado anualmente naquela cidade.

Parabéns, Mestre Joca!






quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Boneco do Cão

O título acima não tem qualquer referência cinematográfica, tipo “Chucky”, de o Brinquedo Assassino. Se você não sabe, “cão” é uma denominação muito usada aqui no Nordeste para se referir ao inominável, ao anjo decaído.

Pois bem, todo lugar tem um jogador de xadrez folclórico para chamar de seu. E João Pessoa não é exceção. Como você já deve estar desconfiando, a capital paraibana também foi agraciada com um, cuja simpática alcunha é “Boneco do Cão”...

Como? … Não, caro leitor, ele não tem qualquer afinidade com o coisa ruim. Muito pelo contrário. Boneco ganhou esse codinome porque cogita-se que nem o “cão” aguentaria jogar com ele!


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Estava acompanhando uma conversa em um grupo do Whats App, quando foi lançado um desafio: uma disputa presencial de xadrez blitz entre João Pessoa e Campina Grande. A especulação em torno de quais jogadores comporiam as equipes começou imediatamente. Nome vai, nome vem. Tentativas de cooptação. Avaliações mil sobre as chances de cada time. E quando parecia que o pessoal de Campina estava levando vantagem naquela discussão, alguém da equipe de Jampa lembrou:

- “Calma jovem, nós temos Boneco!”

A discussão parou. Só depois de uns dez minutos, um campinense perguntou:

- “Quem boba é Boneco?!”

Mais uma expressão comum nestas paragens: “boba da peste” ou, na sua forma reduzida, “boba”. É usada para denotar surpresa, espanto.

Outro integrante do time da Rainha da Borborema ficou nervoso por desconhecer a força daquela arma secreta, e tentou minimizar:

- “Azar de João Pessoa, que tem um boneco que não pensa e não se movimenta, enquanto Campina conta com humanos.”

- “Brinque não! Ele leva o jogo a sério”. Alertou um pessoense.

- “Eu estudei só para não perder para Boneco. Foi meu incentivo”. Completou outro.

- “É horrível perder para ele”. Testemunhou um terceiro. Disse que ele e os amigos criaram um lema, um ideal: “Que eu perca para qualquer um, só não para Boneco”.

- “Para você ter uma ideia...”

E contou que certo dia, Boneco recebeu a visita de um amigo para umas partidas de blitz. Lá pelas tantas, o amigo precisou dar uma saída, e pediu a ele para ensinar algumas regras básicas para sua filha, que o estava acompanhando. Valores das peças, como elas se movimentavam, algumas jogadas, etc.

Quando o amigo retornou, Boneco estava jogando uma partida no relógio com a menina... e pressionando:

“ - Joga, mizera!”

Moral da história: a Paraíba perdeu uma promissora enxadrista.




sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Semana histórica para o xadrez paraibano

Duas equipes paraibanas conquistaram os acessos às Séries A de suas respectivas competições.

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Batalha por equipes – Brasileirão – Série B

A primeira foi a equipe “Paraibanos Nativos para Batalhas”, que venceu a Série B do Brasileirão.

A quarta etapa foi jogada na última terça-feira, com três times ainda disputando as duas vagas: Paraíba, Pernambuco e Pará. A equipe pernambucana fez uma grande mobilização e conseguiu inscrever quarenta e quatro jogadores, a Paraíba manteve sua média com vinte e oito, mas o Pará colocou apenas sete  em campo e, dessa forma, ficou em sem chances de conquistar a vaga.

Já praticamente classificados, coube aos estados de Pernambuco e da Paraíba a disputa pelo primeiro lugar da série. A equipe paraibana tinha uma vantagem de 45 pontos, conquistada nas três etapas anteriores.

O forte time pernambucano venceu com 30 pontos de diferença, mas que já não seria suficiente para tirar o título da Paraíba.

Porém, uma reviravolta ainda nos aguardava. A plataforma Lichess detectou que um jogador de Pernambuco usou a ajuda de computador para jogar suas partidas e, com isso, a equipe pernambucana foi punida em 34 pontos. Assim, além da vitória na Série B, a equipe paraibana também venceu a última etapa!

Transcrevo um comentário feito no grupo do Whasts App do Clube de Xadrez de Campina Grande:

Confirmada a fama da equipe da PARAÍBA ser perigosa na ultrapassagem nos minutos finais de cada torneio. A NOVIDADE DE HOJE É QUE ELA AINDA PODE ULTRAPASSAR MESMO QUE O TORNEIO JÁ TENHA TERMINADO!!!” (Edison Davi).

Confirma a classificação geral da Série B:

Obs.: Pontuação total ainda sem a punição aplicada a Pernambuco

O resultado final da etapa foi o seguinte:

Obs.: Pontuação total ainda sem a punição aplicada a Pernambuco

Mais uma vez, o estado marcou presença no “Top 10” com três jogadores, além participação especial de Rafaell Montenegro, que foi o campeão geral individual da etapa.

Veja como foi a pontuação individual de vinte de nossos jogadores:

- Série A -

O Rio Grande do Norte confirmou sua boa fase. Venceu a quarta etapa do Brasileirão e, de quebra, conquistou a medalha de prata da Série A. Parabéns!

Nos juntaremos ao estado Potiguar, além de Pernambuco, Ceará, Maranhão e Bahia, na próxima edição da Série A do Brasileirão. O Nordeste em peso!

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G10 Brasil – Série B

Nessa quinta-feira, foi a vez da equipe do “Clube de Xadrez de Campina Grande”, que confirmou seu favoritismo ao ganhar a última etapa da competição e vencer a Série B com cem por cento de aproveitamento!

As três primeiras colocadas subiram para a Série A. Confira:


Resultado final da quarta etapa:


O desempenho individual foi o seguinte:



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Agradecemos a todos que deram sua contribuição para essas grandes vitórias. Relembramos mais uma vez a importância de cada um, pois, tal qual no futebol, o time precisa de artilheiros, da mesma forma que de zagueiros. Quem não pontua, pode tirar pontos das equipes rivais.

Vamos em frente! Teremos desafios bem maiores!









O Voo do Capivara - Menino... mas com xadrez de gente grande!

O convidado de hoje já foi apresentado em outra postagem. Trata-se de Flávio Daher. Confira o texto “Um golpe de misericórdia”, se ainda não o fez, para saber como o conheci. Acesse o link:

https://reinodecaissa.blogspot.com/2020/08/desventuras-de-um-capivara-um-golpe-de.html

Flávio foi um talento precoce. Aos 14 anos, obteve o quarto lugar no Torneio Zonal Nordeste, em Salvador (BA). Com esse resultado, se classificou para o Campeonato Brasileiro de 1976, que foi jogado em João Pessoa (PB). Um dos mais jovens jogadores, até então, a participar de uma final do campeonato brasileiro.

Também teve participação destacada no Campeonato Brasileiro Juvenil de 1979, quando conquistou o quarto lugar. Dois futuros Grandes Mestres, Gilberto Milos e Darcy Lima, e o futuro Mestre Fide Francisco Cavalcanti também estiveram nesse torneio.

Além de ser um forte jogador, ele era muito rápido nas partidas de cinco minutos. Em 1988, foi duas vezes ao pódio dos Jogos Universitários Brasileiros (JUB`s), também em João Pessoa (PB). Bronze no torneio por equipes e vice-campeão no torneio de xadrez relâmpago.

Recorte de jornal de 06/07/1976

Na foto: Flávio Daher (PE)   x  Pimenta (MG)

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Outro dia, enquanto conversávamos sobre a final daquele brasileiro, ele disse:

“ - Joguei uma partida interessante com Chemin.”

Ops! Oportunidade à vista.

“ - Posso publicá-la?”

Ele assentiu, e cá estamos nós.

Àquela altura, o MF Vitorio Chemin, além de outras conquistas, já tinha vencido três vezes o campeonato paranaense (1971, 1972 e 1974).

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Estava tentando encontrar uma forma de descrever essa partida, quando me lembrei dos “Spaghetti western”. Os “Faroeste espaguete” são aqueles filmes de "bang-bang"  produzidos na Itália, por volta dos anos 1960. Uma de suas maiores estrelas foi o ator Clint Eastwood. Eu gostava demais! E ainda sou fã do gênero.

Então imaginei a seguinte cena: três “cowboys” caçavam cavalos selvagens numa vasta pradaria, quando se deparam com um imponente garanhão. Um deles joga o laço e acerta. Mas o vigoroso animal se debate violentamente, ameaçando jogar o vaqueiro ao chão. O segundo “cowboy” entra em cena e também acerta sua laçada, mas o cavalo continua a pular. Só quando o terceiro joga sua corda, é que o valente garanhão é controlado.

Agora, verifique a partida, e veja se meu roteiro confere.

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Flávio Daher x Vitorio Chemin

João Pessoa (PB) – julho de 1976

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=QKZwV6hU9qcBHuAVEu6so5ajmlPN4CZBBVAd3Ija9sfGX2VdrE87qH5GBXK+TbM6

1. c4 e6 2. g3 c5 3. Bg2 Nc6 4. Nf3 d5 5. O-O Be7 6. cxd5 exd5 7. d4 c4 8. Nc3 Nf6 9. b3 cxb3 10. Qxb3 O-O 11. Rd1 a6 12. Ne5 Na5 13. Qb1 b5

Esse foi um lance duvidoso, pois abre a posição no setor em que as pretas não estão plenamente desenvolvidas.

Dr. Fritz observou que as pretas deveriam ter continuado com a mobilização de suas forças. Por exemplo: 13.... - Be6 14.a4 – Tc8 15.Bd2 – Bd6, com o jogo um pouco melhor para as brancas.

14. e4! dxe4

A outra opção era 14.... - Bb7, mas também não traria alívio. 14.... - Bb7 15.Bd2 (O cavalo de a5 passa a ser uma fonte de preocupação) 15.... - Ce4 16.Ce4 dxe4 17.Be4 Be4 18.De4, com jogo melhor.

15. Nxe4 Nd5

E o garanhão foi avistado pelos “cowboys”. Nessa posição, o cavalo se submete a possíveis cravadas, agravando os problemas das pretas.

Teria sido melhor 15.... - Bb7 16.Bd2 (ameaçando ganhar uma peça) 16.... - Ta7 17.Cf6+ Bf6 18.Bb7 Tb7 19.De4, apesar de que as brancas ainda manteriam um jogo melhor.

Agora veremos como o jovem Flávio explorou o tema da cravada, ou laçada, como queiram, de forma exemplar.

16. Bd2 

Observe o diagrama. As pretas têm um cavalo em d5 virtualmente cravado, a torre em a8 indiretamente atacada e o outro cavalo de a5 é uma fonte de preocupação.

Por outro lado, as peças menores das brancas são poderosas, além de uma torre em d1 que pressiona a coluna d.

E foi nessas circunstâncias que as pretas colocaram esse bispo na “reta”, ou melhor, na diagonal. Teria sido melhor Be6.

16....  Bb7  17. Nc5

Ameaçando ganhar uma peça. Também libera a ação do forte bispo de g2, cravando o cavalo de d5.

O bispo vaqueiro foi o primeiro a laçar o garanhão...

17.... Bxc5 18. dxc5 Nc6 19. Bf4

… e a torre de d1, como um mourão, se encarrega da segunda laçada.

19.... Nxe5 20. Bxe5 Re8 21. Qb2

A dama amazona entra no jogo com ameaças terríveis, dentre as quais, Bg7 é a menor.

Observe que o garanhão está se debatendo contra dois laços. As pretas já estão perdidas, mas ainda falta a terceira laçada.

21.... f6 22. Bd6 Qa5 23. Qb3

E, finalmente, o terceiro laço foi arremessado. Já era possível 23.Bd5+, mas o lance jogado é mais elegante e, ademais, me deu a oportunidade de “inventar” essa história das três laçadas.

23....  Te6 24. Bxd5 Bxd5 25. Qxd5 Re8

As pretas abandonaram sem esperar resposta.

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Quando acabou a partida, Sunyê se aproximou, deu uma tapinha nas costas de Flávio e disse:

“ - Olha, Chemin não costuma perder para meninos.”

Menino sim, senhor, mas com xadrez de gente grande!

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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

A Paraíba vence mais uma etapa do Brasileirão

Os assuntos dessa postagem são:

  1. Posição com mate em 8 lances;

  2. Bahia Open de Xadrez Online;

  3. Terceira etapa do Brasileirão.

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Mate em 8 lances

Jogando uma partida de blitz online, me deparei com a seguinte posição: 

Achei interessante e resolvi compartilhar. As pretas jogam e dão mate em 8 lances!

Tente encontrá-lo. Divulgarei a solução no final desta postagem.

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Bahia Open de Xadrez Online

A Federação Baiana de Xadrez está promovendo esse megaevento, que contará com torneios absoluto, por equipes e de diversas outras categorias.

Para maiores informações, consulte o site da federação: www.fbxxadrez.org.br.

Corra! As inscrições serão encerradas na próxima segunda-feira.

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Terceira etapa do Brasileirão

A equipe paraibana “Paraibanos Nativos para Batalhas” venceu a terceira etapa do Brasileirão Série B. Assim, manteve a liderança geral da competição, agora com uma maior folga em relação a seus principais concorrentes.

A próxima semana promete ser histórica para o xadrez paraibano, pois as duas equipes que representam o estado disputarão o acesso à Série A em suas respectivas competições. Na terça-feira, a “Paraibanos Nativos” disputará a vaga pela Série A do Brasileirão; na quinta-feira, será a vez do “Clube de Xadrez de Campina Grande” no G10 Brasil.

O resultado geral da 3ª etapa foi o seguinte:


Segue abaixo a pontuação dos três principais concorrentes ao acesso:

1º) Paraíba - 695 pontos

2º) Pernambuco - 650 pontos

3º) Pará - 640 pontos


A equipe paraibana contou com vinte e oito jogadores nessa etapa e conseguiu emplacar quatro deles no “Top 10”. Lembrando que, embora só os dez primeiros pontuem, todos são importantes para o time, pois podem tirar pontos das equipes rivais.

Veja como foi a pontuação individual dos vinte primeiros.


Parabéns a todos! Vamos manter a mobilização para garantir os acessos às séries A, onde os desafios serão maiores.

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Solução do desafio

O primeiro lance deve estar gritando: “Sacrifique a torre! Sacrifique a torre!”. Então:

https://share.chessbase.com/SharedGames/share/?p=Oh9K7XRebo46CbJg0RgG807RnA7HpnCAmocRK47i0PhCeEG3QiBOVkgl1sh2ePIp

1.... Tg2+

Eu estava de pretas, percebi o sacrifício e achei que ele era promissor, mas não calculei toda a sequência. Cuidado com 1.... Dh3??.

2. Rg2 Tg8+ 3. Rf3 Df4+ 4. Re2 Tg2+ 5. Rd3

O lance 5.Tf2 teria sido apenas protelatório.

5.... Be4+ 6. Rc4

Se 6. Rd4, seguiria 6.... Td2+ 7. Bd3 Bf3+! 8. Te4 De4++

O rei ameaçava escapar através de b5. Então:

6.... Bd3+!

- Vossa majestade deve voltar!”

7. Rd3 Td2 xeque-mate

Essa foi a linha que joguei. O mate foi em apenas sete lances porque as brancas não jogaram 5.Tf2. Tente comprovar se o mate ocorreria mesmo em oito lances, caso esse movimento tivesse sido efetuado.