domingo, 13 de maio de 2018

Karpov: Fischer me derrotaria em 1975!

Bobby Fischer
Por Fernando Melo
Entrevista com o MI Herman Claudius van Riemdsky 

Introdução


Sou um velho jornalista de mais de 40 anos de batente, já ouvi muitas declarações marcantes. Entrevistei Luis Carlos Prestes,  Lula, Ulysses Guimarães, Celso Furtado, Delfim Neto, que de uma forma ou de outra influenciaram com suas ideias alguns momentos históricos de nosso país.

No mundo do xadrez, entrevistei Dr. Luis Tavares e MI Herman Claudius, para citar apenas dois. Toda a minha educação enxadrística eu devo ao saudoso Dr. Luis Tavares, por causa dele eu amo a Abertura Bird, por causa dele, aprendi a respeitar Bobby Fischer. Mas é com o MI Herman Claudius, que conheço desde 1976 (42 anos), que passo a ter uma eterna gratidão pelo que aconteceu ontem, ao ele dar uma declaração que reputo a mais importante para o meu universo fischeriano, já que me considero um estudioso da vida de Bobby Fischer, mesmo sabendo tão pouco. 
Anatoly Karpov
Quantas vezes tive que ouvir, vezes sem conta, que Fischer não jogou com Karpov com medo de perder. Nunca vou concordar com isso, mas respeito o direito de quem assim pensa. Só que espero, e espero mesmo, que a partir de hoje, esses amigos reconheçam que Fischer não tinha medo de perder para Karpov, porque o próprio Karpov reconheceu que Fischer o venceria! 

É o que vamos constatar na entrevista que veremos a seguir com o 
MI Herman Claudius.

Herman Claudius
ENTREVISTA


FM - Você esteve com Bobby Fischer em setembro de 1971, em Buenos Aires, quando ele jogou a Final de Candidatos contra Tigran Petrosian. Esteve outra vez (antes ou depois) da data citada?

HC -Quando o match terminou ele foi a Tucuman onde estava acontecendo o Panamericano por Equipes e eu estava jogando.

FM - E foi lá que Quinteros lhe apresentou a Fischer?

HC - Não. Foi no match no Club Argentino de Ajedrez.

FM - Naquele momento você era campeão brasileiro e ele conhecia umas partidas suas com Medina?

HC - Já tinha deixado de ser campeão brasileiro e ele não conhecia só essas, mas outras também. 

FM - Fischer, pelo conjunto da obra, de 1956 até 1972, será um dia superado? Ou continuará sendo considerado o melhor jogador de todos os tempos?

HC - Acho que está entre ele e o Kasparov, ao menos por enquanto. Fischer não teve uma retaguarda como teve o Kasparov, o que em algum sentido desempata a favor dele. 

FM - Certo. Uma vez. Dr. Luis Tavares me disse que Fischer deu dignidade ao xadrez, fazendo-o ser respeitado. Os prêmios foram se valorizando, graças à luta e os protestos de Fischer. Isso não separa Fischer dos demais e o torna um grande campeão  - 1972 dentro e fora do tabuleiro?

HC -  É verdade. Mas - infelizmente - também fez muitas bobagens.

FM - Bobagens depois de 1972, ou você acha que ele fez antes também? O meu estudo sobe Fischer começa em 1956 e termina em 1972.

HC - Nas negociações andou fazendo algumas bobagens.

FM - No match contra Spassky (1972) você certamente acompanhou. Acreditava que Fischer iria vencer, sabendo que ele estava enfrentando a Escola Russa, pela força dos "segundos" de Spassky?

HC - Fiz a cobertura do match tanto para o Estadão como para a Radio Eldorado, e nunca tive dúvida que no tabuleiro ele iria ganhar.

FM - Parece que essa era a opinião da maioria dos comentaristas da época. O que ele fez contra Taimanov e Larsen deve ter assustado muito a Petrosian, ou não?

HC - Talvez, mas até certo momento ele enfrentou de igual para igual. Depois vergou e quebrou.

FM - Verdade, os 4x0 finais ... Mas Herman, uma última pergunta e acho que é a mais importante, sendo todas importantes quando se trata de Bobby Fischer. Fischer venceria Karpov em 1975?

HC - O Fischer me disse em 1971 que ganharia de Spassky e já tinha previsto que o Karpov seria o seu desafiante, mesmo sabendo que ele ainda estava no inicio da sua carreira. O próprio Karpov confessou numa entrevista na Bola da Vez, no ESPN em São Paulo (dia 24/11/2004), em que fui um dos entrevistadores, que era provável que Fischer o derrotaria em 1975 , mas ressalvou que com mais um ciclo (1978) ele teria muitas boas chances. 


11 comentários:

  1. SHOW DE CHESS!!! FISCHER THE BEST!! Parabéns Presidente pela bela entrevista e muito obrigado Grande Herman Claudius.

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  2. Entrevistar o Cavaleiro da Esperança é realmente uma oportunidade de poucos. Parabéns Fernando.

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  3. Parabéns pela entrevista. Mas se Fischer era tão superior assim, porque pleiteou regras tão desfavoráveis a Karpov? Na minha humilde opinião, em 1975, sem jogar há 03 anos, o próprio Bobby tinha total consciência que não poderia superá-lo.

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    1. Com certeza os russos iriam se unir para tentar derrotar o americano.Ai seria desunamo pq a rivalidade entre os paises era grande. Agora se o próprio Karpov diz que iria perder...comentar o que ? Silvio Melo digita

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  4. Valeu, Fernando. Se O PRÓPRIO KARPOV disse que seria superado por Fischer num primeiro match, a charada tá resolvida. Em algum momento ele seria vencido, é claro ... a idade pesa. Mas a questão essencial, que ERA se Fischer FUGIU porque sabia que iria perder, está SUPERADA. Um forte abraço, Dom Fernando de la Mancha!

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  5. Mestre Ivson! É por essa e outras que tens a minha eterna admiração!Forte abraço!

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  6. Fernando Melo. Excelente! O MI Herman Claudius van Riemsdijk é uma personalidade irrepreensível na história do xadrez brasileiro. E está precisando de alguém como você para escrever a história e a riquíssima biografia enxadrística que é a sua (dele) vida. Mãos à obra!

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  7. Mestre Salomão Rovedo. Não sei, sinceramente, que eu seja a pessoa indicada para tão nobre missão. Mas uma coisa é certa: tenho por Herman Claudius uma admiração que vem de longe (1976) Pretendo - se o Homem lá de cima permitir, como costuma dizer o Paladino do Nordeste na primavera dos seus 95 anos feitos em 2 de fevereiro - pretendo, repito,homenagear o MI Herman Claudius Van Riemsdijk, na X edição do Memorial Bobby Fischer, com ele presente! Fico sensibilizado, Mestre Salomão, com a lembrança do meu nome para ser o biografo de tão ilustre personalidade do xadrez brasileiro e internacional, que é o Mestre Herman!.

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  8. "HC - O Fischer me disse em 1971 que ganharia de Spassky e já tinha previsto que o Karpov seria o seu desafiante, mesmo sabendo que ele ainda estava no inicio da sua carreira. O próprio Karpov confessou numa entrevista na Bola da Vez, no ESPN em São Paulo (dia 24/11/2004), em que fui um dos entrevistadores, que era provável que Fischer o derrotaria em 1975 , mas ressalvou que com mais um ciclo (1978) ele teria muitas boas chances."
    Karpoz diz: "era provável" que fischer me derrotaria, e não, que "fischer o derrotaria". Ressalvado inclusive que teria melhores chances em 78!!! jose de arruda camara

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  9. Mestre Arruda! O titulo é jornalistico (poucas palavras de efeito) e geralmente é assim...para provocar a atenção do leitor.Quando se ler o texto completo se entende, como voce entendeu. Não houve má fé de minha parte...nem voce disse que houve. Abraços!

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  10. De fato, a fala de Karpov não foi exatamente como o título da postagem colocou, mas a motivação foi jornalística, como salientou Melo! Porém, pensemos... Como poderia Karpov dizer literalmente que Fischer o derrotaria? Se assim o fizesse, estaria levando a zero suas chances de vitória, o que, num contexto de disputa de Mundial e até mesmo por uma questão de ego, não seria factível! É lógico que Karpov poderia ter alguma chance! Afinal, vários fatores extra-tabuleiro poderiam contribuir para isso, como condições do ambiente do jogo e perturbações pessoais, que, como sabemos eram pontos críticos para Fischer! A leitura, porém, que considero mais correta da afirmação de Karpov, segundo a qual provavelmente Fischer o derrotaria, é mesmo o reconhecimento de que o campeão mundial haveria de vencê-lo, em "condições normais de temperatura e pressão"! Nesse sentido, a notícia é mesmo relevante, jornalisticamente "bombástica", que sepulta de uma vez por todas a ideia equivocada de muitos, de que Karpov haveria de vencer o match! Fischer o derrotaria! Foi isso que o russo quis efetivamente dizer!

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