quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Leontxo revela: "Spassky ainda sonha com Fischer!"

BORIS SPASSKY, EM SOCHI
(fonte: site El País)
A matéria que apresentamos a seguir, de autoria do conceituado jornalista Leontxo Garcia,  foi publicada no último dia 11 de novembro, originalmente em espanhol, no site El País, onde Garcia relata seu encontro com o ex-campeão mundial russo Boris Spassky, ocorrido em Sochi, por ocasião do match pelo título mundial entre Carlsen e Anand. Na reportagem descortinam-se fatos surpreendentes da vida daquele que protagonizou o mais espetacular encontro enxadrístico da história, ao enfrentar e ser vencido pelo lendário americano Bobby Fischer. Também vemos nessa postagem as impressões de Spassky sobre o astro do xadrez mundial da atualidade, Magnus Carlsen (reveladas antes da definição do match a favor de Carlsen). Sem mais delongas, segue a matéria de Leontxo, com tradução livre para o português, de nossa autoria. 

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Ele foi primeira página em todo o mundo, em 1972, quando perdeu o título para o americano Bobby Fischer, durante a Guerra Fria entre a URSS e os EUA. Tratado como um traidor em Moscou, emigrou para Paris, de onde regressou em 2012, com tons novelescos depois de sofrer um acidente vascular cerebral. Hemiplégico e arruinado por um divórcio, o lendário Boris Spassky (Leningrado, 1937) detém uma agilidade mental surpreendente aos 77 anos e ainda sonha com Bobby Fischer. Convidado de honra do Campeonato Mundial entre  Carlsen e Anand, em Sochi (Rússia), Spassky sofreu seu primeiro grande derrame em 2010 (houve um outro, leve, em 2006) e foi submetido a um programa de reabilitação difícil em Paris, liderado por sua terceira esposa Marina, com quem emigrou de Moscou, em 1976. O ex-campeão interpretou essa disciplina férrea como uma espécie de seqüestro, e, em 2012, fugiu de casa e voou para Moscou com a ajuda da Embaixada da Rússia e de Valentina, sua antiga representante, que agora cuida dele. Mas Marina e seu filho processou-o em tribunal, o que está causando a sua ruína financeira.

As circunstâncias de sua emigração em 1976 também foram muito peculiar. Spassky havia passado quatro anos de dificuldades na União Soviética, cujo governo acusava-o de ter perdido a honra nacional ante Fischer. Para entender isso é preciso saber que a guerra nuclear URSS e os EUA estava prestes a explodir várias vezes naquela época. O xadrez foi um grande orgulho para o Kremlin, uma vitrine intelectual para a URSS: 287 milhões de habitantes; cinco milhões de enxadristas federados; 50 milhões de praticantes esporádicos; e 80% dos melhores do mundo eram soviéticos. Neste contexto, um americano extravagante, rebelde, autodidata, havia superado grandes estrelas do Torneio de Candidatos, e agora (1972) desafiava o grande campeão Spassky.

Mas Fischer se recusou a ir para Reykjavik, a sede do duelo, porque o prêmio (138.000 dólares de então) parecia-o  muito baixo, apesar de que o mecenas britânico James Slater havia doado mais 125.000 doláres. Em seguida, ele recebeu o convite do Secretário de Estado (equivalente ao Ministro das Relações Exteriores) Henry Kissinger, que, segundo o relato de Fischer, disse-lhe: "Eu falo em nome do presidente Richard Nixon. O Governo do seu país pede-lhe que vá a Reykjavik,  como um dever patriótico, e que derrote Spassky para infligir um duro golpe propagandístico a nossos inimigos soviéticos".

Apesar de sua derrota e das duras consequências, Spassky  cimentou uma profunda admiração por seu carrasco, o que resultou em uma amizade inquebrantável até a morte de Fischer em 2008. Em seus últimos anos, Fischer, vítima de doença mental grave, disse coisas terríveis, como negar o Holocausto ou se alegrar com os ataques terroristas do 11 de Setembro. Mas, como acontece com milhões de enxadristas, Spassky só quer se lembrar daquele gênio maravilhoso e carismático que tanto fez pelo xadrez antes de perder o prumo.

E fala com Fischer em seus sonhos: "Por exemplo, uma vez eu perguntei qual é a primeira jogada melhor, 1. e4 ou 1. d4 e me disse que era d4, porque esse peão está defendido e o outro não." Ele também recorda uma das obsessões do estadunidense: "Estava convencido de que todos os grandes mestres soviéticos eram agentes secretos da KGB. Uma vez eu prometi que se a KGB me recrutasse eu o convidaria para um jantar luxuoso em um restaurante chique .. mas isso nunca aconteceu. "

Um dos segredos de preparação de Spassky durante um Campeonato do Mundo é muito surpreendente: "Para mim, o fundamental era dormir muito e bem. E conseguia isso tomando “100 gramas” de vodka de grande qualidade. Porém não recomendo isso a Magnus Carlsen e Viswanathan  Anand. É melhor que caminhem ao ar livre e nadem no Mar Negro. "

Disse que não tem favorito neste Mundial, mas se nota que admira Carlsen: "É tenaz, sensível, harmônico, muito confiante em si mesmo. Na minha imaginação, eu o vejo como um gnomo, o que me cai muito simpático. E ademais  tem a inteligência para ficar fora da política, algo perigoso nestes tempos."


Além de seus problemas de saúde graves, Spassky tem outras preocupações sérias: "Minha esposa francesa tem tirado minhas propriedades, meus arquivos, tudo. E a tragédia da guerra na Ucrânia me afeta muito. Porém, tento ser feliz escrevendo minhas memórias, vendo o sol nascer a cada dias, observando como crescem as minhas plantas.   Hoje, mais do que nunca. precisamos de xadrez. Mover essas peças de madeira e pensar sobre sua estratégia nos permite esquecer as desgraças deste mundo".
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Um comentário:

  1. Muito bom! Deveria existir pensão vitalícia (a la Mr. Wagner e companhia) para esses gênios do xadrez mundial. Steinitz deveria servir de exemplo em relação a isso. Pessoas que tanto fizeram pelo xadrez não podem ser lembrados por momentos difíceis e complicados de cada um. Ainda há de se considerar uma certa prevalência de doenças psiquiátricas que podem afetar esses indivíduos.

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